Páginas

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Solidão Teológica


As maiores produções literárias foram desenvolvidas na “solidão”, longe dos aplausos e muitas vezes com reconhecimentos póstumos. Isso aconteceu com poetas, filósofos, teólogos, etc.

Vem-me a mente Soren Kierkegaard, teólogo dinamarquês, cujos escritos influenciaria toda uma geração posterior; Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão executado aos 39 anos num campo de concentração nazista, cuja tradução póstuma de suas cartas prisão o tornaria notório; Leonardo Boff, teólogo brasileiro, que por seus escritos foi condenado ao silêncio pelo Vaticano; Rubem Alves; enfim, a lista seria extensa. Trabalharei, portanto com a hipótese do teólogo.

A solidão do teólogo é tão notória que ele precisa justificar-se constantemente diante da pergunta: O que faz um teólogo? Qual a sua contribuição? Sua identidade nunca esteve tão em crise como atualmente. Afinal, o que é Teologia? Arte? Ciência? Filosofia? Aqui reside (um pouco) a crise do teólogo, mesmo quando não se têm consciência disso. Talvez seja fácil descrever o objeto de pesquisa do sociólogo, do antropólogo, do historiador, etc. Mas o que pensa um teólogo?

O teólogo pensa sobre Deus e sua relação com o universo, com o homem, com a história; mas seu discurso não desperta interesse nem por parte das organizações eclesiásticas, muito menos pelos de fora dela. Até compreensível, afinal, a teologia não é mais a “rainha das ciências” como foi para os Escolásticos no período medieval! Não pode ostentar-se como “ciência” para os novos modelos de ciência. É tanto, que surgiu as “Ciências da Religião” com uma proposta distinta da Teologia.

Lembro-me do esforço da Senadora Heloísa Helena para refutar uma declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a importância do teólogo no Brasil. Segundo FHC, o teólogo em nada contribuiu para educação do país. Imagine a Senadora com seu discurso apologético, enérgico e eloqüente! (TV Senado, 1997).

Muitos seminaristas quando buscam uma formação complementar na Sociologia, Filosofia, etc., têm a tendência de negar a Teologia, talvez, pela decadência do conceito da mesma, o que também (com pesar) admito.

Rubem Alves discutiu este assunto num capitulo de seu livro “Variações sobre Vida e Morte” de 1985. A crônica de Alves mostra mais ou menos o teor desta solidão:

“A minha profissão? Bem... sou teólogo. Não, o senhor não me ouviu bem. Não sou geólogo. Teólogo. Isto mesmo... Não é necessário dissimular o espanto porque eu mesmo me espanto, freqüentemente. E nem esconder o sorriso. Eu compreendo. Também não é necessário pedir desculpas. Sei que sua intenção foi boa. Perguntou sobre minha profissão apenas para começar uma conversa. A viagem é longa. É fácil falar sobre profissão. Tudo teria dado certo se minha profissão fosse uma destas profissões que todo mundo conhece. Se eu tivesse dito dentista, médico, mecânico, agente funerário já estaríamos a meio a um animado bate-papo. Da profissão passaríamos a crise econômica, da crise econômica saltaríamos para a política e o mundo seria nosso”. “O teólogo fala como quem acredita. Mas é isto que ficou proibido: acreditar. Daí a vergonha e o estigma. Como é possível que o levem a sério?... Daí seu silêncio, a solidão...” [1]

Para encerrar, cito Karl Barth: “Quem se envolver com a teologia ver-se-á inevitavelmente levado desde o início e, depois, repetidas vezes a uma estranha solidão, notoriamente angustiante. O teólogo deverá, em regra, conformar-se com o fato de tratar de seu assunto em certo isolamento, não só em relação ao ‘mundo’, mas também à Igreja”.[2]

Espero que, nesta solidão possam surgir muitas produções teológicas sérias. E como idéias são fragmentos, coloco-as a disposição de críticas e observações. Talvez seja um solilóquio, talvez.

[1] ALVES, Rubem. Variações Sobre a Vida e a Morte. São Paulo: 2° ed. Paulinas, 1985.
[2] BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 1996.

3 comentários:

  1. Caro Teles, serei suspeito ao elogiar este ensaio, pois nutro grande admiração de seus escritos. Contudo, diante da precisão de sua argumentação e da clareza de sentido que interpreta e expoem o pensamento da sociedade atual, é preciso parabenizá-lo pela coragem de escrever citando Bonhoeffer, Barth, Boof, Alves, Kierkegaard. Faltando ainda nomes como Schleiermacher, Bultmann, Brunner etc. Nomes, dos quais tornariam o teu ensaio num livro. Aos leitores que gostarem do debate, vale apena ler o livro publicado em 2007, por vários autores, teólogos e cientistas sociais, entre eles Máspoli Gomes e Antonio Gouveia de Mendonça: Teologia, ciência e profissão. da editora Fonte Editorial. Teles, um grande abraço é um grande Ensaio/Artigo.

    ResponderExcluir
  2. Meu amigo, Teólogo, intelectual e amante das teorias empíricas que nos leva a refletir sobre a sociologia moderna, parebenizo-te e sinto-me contemplado e envaidecido por fazer parte do mesmo grupo de sociologia e política da FESPSP ao qual você está brilhantemente mostrando todo o seu potencial filosófico!
    Quero registrar meus protestos de estima e votos de sucesso pleno em sua caminhada.
    Parabéns pelos textos! muito bem elaborados e esclarecedores!

    Motumbá,

    Tadeu (Kaçula)

    ResponderExcluir
  3. Hoje em dia a Teologia não é vista como uma profissão, uma carreira, talvez por isso haja essa solidão teológica, parte de estudos e pensamentos que um teólogo desenvolve ao longo de sua vida, ficará restringindo a somente ele e as poucas pessoas que ainda tem interesse na teologia como ciência, como um exercitar da mente em busca de conhecimento real do que é Deus, do que Ele representa e qual seu papel na vida do ser humano. Hoje em dia a teologia (ao meu ver) não passa de um curso, exigido por instituições àqueles que desejam ter um cargo. Acredito que o maior desespero e solidão do teólogo é conseguir se fazer compreender, numa sociedade onde aqueles que se envolvem na teologia estão mais preocupados com trazer uma palavra bíblica pentecostal avivada, do que compreender tudo aquilo que a por trás da religião e da fé e relacionamento do homem com Deus.

    ResponderExcluir