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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ensaio sobre inquietações...

Escrever, registrar idéias, tarefa não tão simples para um mediano admirador das letras e pensamentos de alguns gênios, tanto em poesia quanto em filosofia, em teologia ou antropologia, em sociologia ou ciências políticas, em contos ou fatos. Para tais gênios, escrever não é simplesmente emitir palavras ao ar como se elas não tivessem significados, como se elas não fossem frutos de um mínimo de pensar. Disse, para tais gênios.

Neste caso, me vejo sempre tentado a revisar o que escrevo. Não pelo fato da ausência de um pensar, mas pela transitoriedade do pensar. Tais registros são condicionados a um momento, a uma determinada “situação” temporal, como diria Paul Tillich. Situações subjetivas, leituras parciais dos fatos, mas que de alguma forma, fazem sentido. Prova disso é que apaguei e corrigi muitos pensamentos neste texto. Os que permaneceram convenceram-me, como se dissessem: “somos frutos desse momento e seremos valiosos para outros momentos”. “Valiosos para quem?”, perguntei. “Ao escárnio”, talvez, respondi.

Penso sempre na mínima possibilidade de alguém ler este texto, e como as probabilidades são mínimas, abusarei de minhas inquietações, sem muitas preocupações rígidas ou acadêmicas. Busco registrar algumas inquietações e devaneios. Logo esquecerei, quem sabe.

Para além de uma simples arte, escrever é uma exposição do temporário para o atemporal, memorial do que seria esquecido no falar. É a denúncia no tempo e no espaço de tudo aquilo que o “inquieto” experimenta na vida, sejam elas positivas ou não. Os hermenêutas inventarão ou chegarão próximos do que o escritor tentou dizer, mas o segredo de sua subjetividade permanecerá hermética. Mas como ter certeza de uma interpretação se ela surge de um caos, numa inquietação? As circunstancias que moldam uma linha são diversas. Em meu caso, terei a certeza da desconexão, da inexatidão, da falta de habilidade com as palavras e da inevitável mistura de teologia, filosofia, sociologia, poesia, encantos e desencantos. Mas, não se pode esperar “ordem” num texto que versa sobre “inquietações”.

As obras de artes que reúne intelectuais para admirá-la ou para deduzir o que se passava na mente do artista, não foram produzidas em calmaria. Os artistas tentam captar a “essência” da agitação para então tornar estático o movimento, produzido por outros movimentos: do corpo e da mente, que se movimenta em muitas direções. Retratar a realidade ou mesmo o que se pensa sobre ela é sempre uma atitude inquieta. Geralmente se cria outra “realidade” como aquelas dos espelhos ou como aquelas que idealistas e empiristas procuram “descrever”, ou mesmo inventar. Descartes ou Bacon? Sabe lá...

Estar “inquieto” é perceber a transitoriedade das coisas, da existência, do pensamento, das preocupações, da felicidade... felicidade? Repetida vezes tentamos dar sentido a existência, e mesmo na companhia de muitas pessoas, cujo círculo de “dependência” é interminável, como dizem os sociólogos e antropólogos, experimentamos uma estranha solidão. Resultado de uma sociedade consumista e individualista ou sempre esteve em todas as camadas de qualquer sociedade?

Em perspectivas diferentes, crentes ou ateus, cada um a se modo, buscam dar sentidos para sua existência. Os religiosos declaradamente o fazem assegurando uma certeza, mesmo não a vendo; ao passo que o ateu assegura o sentido de sua existência negando a crença do outro ou com indiferença e dessa forma, substituindo por outra forma. Sua existência é confirmada pela negação, pela relativização. Enfim, afirmação ou negação, o sim e o não, são apelos inquietos de uma existência dialética.

Afinal, o que existe? Não se trata de uma pergunta retórica como no platônico filme Matrix ou de qualquer ceticismo epistemológico, mas, simplesmente de demonstrar que, se esta pergunta não inquieta, é porque nos esquecemos com certa facilidade da história do pensamento humano. Basta se lembrar do “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates; do “ser ou não ser” de Hamlet; do “penso, logo existo” de Descartes; do “super homem” de Nietzsche; do “sentimento de dependência absoluta” de Schleirmacher; do “salto da fé” de Kierkegaard; do “positivismo” de Comte; do “uni-vos” de Marx, etc. Enfim, qual o sentido da filosofia, das ciências humanas e sociais, biológicas ou cosmológicas, ou mesmo do ócio ou do niilismo?

Tentarei ser “mais” otimista. Quão maravilhosos são os manuais de auto-ajuda, que, aliás, é uma bela forma que alguns encontraram para “ajudar” o bolso, prescrevendo a felicidade com fórmulas do fingimento. Basta fingir que é rico ou belo e reafirmar até se convencer que é, e pronto! É como nos contos de fadas que o rei fingiu estar vestindo numa roupa real para convencer-se de era inteligente. Na verdade estava despido. Enfim, é uma forma de buscar sentido... um sentido sem sentido. Por que não disfarçar o que inquieta? Bela receita moderna, mas obrigado...

Que paradoxo! Há pouco tempo que ouvi um “maduro” monge budista ensinando que o sofrimento não existe. Enquanto ele a negava, outros monges estavam morrendo na China por defenderem a independência do Tibet. Se o sofrimento não existe, por que falar de paz, felicidade? Embora os filósofos discutam sobre “essência” e “existência” e sobre quem precede quem (que diga Sartre e Heidegger), o fato é que não falaríamos de algo se ela realmente não existisse ou fosse inventada. Ao se falar de felicidade ou do que inventaram a cerca dela, se pressupõe o contrário.

Outro paradoxo: uma tocha dita olímpica (que se for apagada, existe isqueiros e fósforos) tem mais valor e atenção que uma vida humana. Como as atividades humanas estão repletas de fingimento, confirmando as teses de Erving Goffman as “representações do eu na vida cotidiana”. “Milhões”, palavra tão representativa numa sociedade capitalista, é facilmente empregada num empreendimento qualquer, que na produção de oportunidades para quem não tem uma moradia ou mesmo um prato de comida. Milhões para realização de uma Olimpíada ou Copa e nenhum interesse em criar oportunidades a crianças abandonadas. “Ei pessoal, a África ainda está lá... as vuvuzelas, símbolos de uma felicidade passageira se calaram”. Enfim, vamos nos divertir, dançar em praça pública, comemorar a oportunidade histórica de sediar uma Olimpíada (o melhor que tivemos da Grécia) ou uma Copa do Mundo! Vamos nos emocionar, chorar de “alegria” em rede nacional e nos sentirmos mais importantes que outras nações concorrentes! Isso mesmo, vamos cantar e batucar ao lado de crianças abandonadas passando fome próximo ao semáforo. Vamos reverenciar a “tocha”, o famoso totem, a “religião” dos críticos da religião, um símbolo forjado de uma felicidade inventada... sentida, sim, mas às custa de um fingimento... Basta se lembrar que a mesma “tocha” presenciou a morte de muitas pessoas no Coliseu de Roma e insiste em presenciar diversas sociedades se divertirem e fingirem a vida. Certa vez ela presenciou Hitler ridicularizar um atleta negro. Ela serviu de divertimento para uma sociedade burguesa que logo entraria em guerra. Quem disse mesmo que só a religião é uma válvula de escape? Quem disse mesmo que só a religião é um ópio?

Que paradoxo! Destruímos a natureza (no sentido mais biológico possível) fingindo sobreviver e agora muitos fingem não ter nada a ver com isso. Aliás, Marx já dizia que a produção humana é dominação da natureza. Ele garante sua sobrevivência transformando-a. Um rio a menos, um jacaré a menos, uma arvore a menos... uma criança a menos...

Não consigo outra palavra a não ser “inquieto”. Ser inquieto é perceber, embora use muito as forças, “só” não fará diferença, e que embora use muitas palavras, acabará percebendo o quão pálidas elas são para descrever a “realidade”.

Coloco uma vírgula em minhas tergiversações com certo estranhamento, pois nem foram observações cientificas como fazem os sociólogos e historiadores, como também não foram linhas poéticas, lindas linhas poéticas. Quem sabe uma mistura (mal sucedida). Enfim, foram inquietações... polifonias do ego... nuvens de palavras mergulhadas num rio etnocêntrico, jamais admitido num texto com pretensões acadêmicas...

Talvez me arrependa deste texto depois, que venha o depois e me convença!
E para não perder o hábito irônico de ser: resta-me fingir que alguém leu...

Um comentário:

  1. Teles para sua surpresa eu li seu post, senti uma certa falta de otimismo em relação a palavras e infelizmente entendo vc. Bom vou comentar um pouco primeiro a solidão sempre vai existir no ser humano em qualquer camada da sociedade, nascemos e morremos sozinhos, ninguém estará passando a mesma coisa que vc no ponto inicial e final de sua vida. Infelizmente a
    milhares de pessoas vivendo como vc falou acima, fingindo, imaginando uma realidade totalmente diferente do mundo ao seu redor, isolando-se em seus sonhos e ignorando a dor, o sofrimento e a dura realidade do mundo ao seu redor. Sinto a mesma revolta que acredito vc sinta, ao pensar em hipocrisias humanas como uma tocha que tem rodar o mundo acessa, milhões gastados em eventos esportivos, o descaso com a natureza e com o caos que vem tomado conta do planeta, já notoriamente visível. Compartilho inquietações como vc, me pergunto pq um político ganha cerca de 15 mil reais, e eu que sou professora formando aqueles que serão os próximos políticos, policiais, médicos e todos aqueles que farão parte da mão de obra do Brasil ganho um salário tão inferior ao deles. Me inquieta ver as crianças passando fome, a falta de oportunidade, a desigualdade financeira, o caos da saúde pública...é inquietante, revoltante, e creio que é assim, expressando nossas revoltas, inquietações e frustrações que talvez venhamos a nos sentir melhor, já que mudar a realidade de um mundo de homens egoístas no poder e no controle de nações é praticamente impossível. Bjs, prof rs.

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