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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Resenha: "Modernidade" - DELACAMPAGNE, Christian.

DELACAMPAGNE, Christian. História da Filosofia no Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.; p. 11-20.

Resenha produzida para disciplina Sociologia III - na ESP - Escola de Sociologia e Política de São Paulo, 2010.

Não há um consenso entre os estudiosos sobre a exata cronologia e por quais eventos históricos a “modernidade” tenha iniciado ou mesmo, por quais ela teve (ou terá) fim, dando início á um novo período. Os debates contemporâneos sobre modernidade e pós-modernidade, suas rupturas ou continuidades, é uma demonstração deste fato.

No entanto, é possível verificar na história pensamentos e eventos que determinaram grandes transformações sociais. Para a maioria dos pesquisadores, o século XX foi marcado por transformações consideravelmente complexas e contraditórias, sentidas na cultura, na arte, na economia, na ciência, na religião, etc.

Delacampgne, por exemplo, além de opinar e delimitar um período específico sobre o qual julga possível detectar a gênese transformadora da “modernidade”, aponta, e ainda qualifica os rumos que o promissor século XX terminou, sem no entanto estabelecer uma conexão inerente na própria modernidade, isto é, a instrumentalização da tecnologia e a manutenção do poder, que por fim resultaria nas contradições apontadas pelo autor, como por exemplo as guerras. Os crimes originados “pela perversão do pensamento” não seriam, neste contexto, os crimes “justificados” pelo “pensamento científico”, tornando contraditório toda produção otimista? Modernidade não seria ao mesmo tempo o encanto pela explicação e o desencanto pelo resultado progresso científico?

Segundo o autor, o século que acabou mal teve seu auge e modelo promissor entre 1880 e 1914, numa especial análise do continente europeu. Este início promissor do século XX não poderia ser compreendido sem a avaliação das principais mudanças desde o Renascimento até o final do século XIX.

Detecta-se no período que antecede o século XX, certo conformismo com a tradicional filosofia, cujas representações da realidade já haviam sido estabelecidas pelos ideais iluministas, nos quais os “signos eram confiáveis”, as “linguagens eram verídicas”, e, portanto, representação ideal do mundo real.

Segundo Delacampagne, estas convicções, sem dúvida herdeira da razão kantiana, passam por uma revisão a partir de 1880. Surgiam questões, como: Os signos que interpretam o mundo são absolutos e objetivos? Não seriam possíveis outras formas de construir o mundo?

Para o autor, estas novas questões inauguram uma “crise” com dupla significação: por um lado enriquecimento cultural e por outro, uma libertação, emancipação acerca da única forma de conceber o mundo.

O autor enumera o surgimento desta cultura “moderna”, a partir destas preocupações presentes entre 1880 e 1914 por parte dos poetas, músicos, artistas, filósofos e cientistas, responsáveis em conjunto, conforme a seguir, pelas principais transformações sociais.

Os poetas, por exemplo, experimentam, o que o autor chama de “liberdade da linguagem” até então inconcebível.

Na música, a inovação é introduzida por Arnold Schöberg, que inaugura um sistema de composição atonal, indo na contramão da harmoniosa musica ocidental.

A pintura artística, ameaçada pela nascente arte da fotografia, inova sua linguagem de representação sobre o mundo. Desta forma, os artistas, diversificam suas formas na representação do mundo real.

Para além das formas de representações artísticas, os cientistas questionarão, por sua vez, sobre o fundamento das ciências. Nesse processo, a matemática foi a primeira a reformular seus principais conceitos.

Tida como fundamental e exata, a matemática constata a falta de rigor em seus conceitos básicos, principalmente naqueles pautados na razão kantiana.

Kant foi o marco do Iluminismo e criador de um sistema racional que perpassaria todo um século, sendo ainda influente no século atual. Esta doutrina ficou conhecida como “criticismo”, que estuda o fundamento e os limites do “conhecimento”, isto é, a capacidade de elaborar juízos.

O juízo é identificado como um “ato do espírito que relaciona o predicado e um sujeito”. Kant classifica dois tipos de juízos: o analítico, que por seu limite permite “elucidar o conhecimento”, mas “não aumentá-lo”; e, por conseguinte, o sintético, o juízo pelo qual o saber é reconhecido como verdadeiro. Este por sua vez, divide-se em dois: o a priori e o a posteriori.

O a priori, juízo cujo “sujeito apresenta um caráter necessário e eterno”. Este se apóia numa experiência pura intuitiva, não empírica. O a posteriori, é o conhecimento que vem de fora, é apreendido pela experiência empírica.

Neste sentido, os matemáticos sem vêem na obrigação de revisar alguns conceitos básicos, pois estes estavam baseados no juízo a posteriori.

Estas preocupações da matemática seriam também dos físicos, pois suas proposições estavam nos mesmos limites.

O autor aponta também transformações na área biológica, principalmente a partir da teoria darwiniana da evolução, que transfere a natureza de sua transcendência teológica, colocando-a na história concreta. Esta mudança proporcionou importantes descobertas na fisiologia, neurologia e para a medicina moderna.

Neste período detecta-se também uma efervescente transformação nas ciências sociais, como a história, a geografia, a economia e a sociologia:

O autor descreve o surgimento da lingüística por Saussure e sua preocupação com o funcionamento interno e estrutural da linguagem em contraste com a clássica filologia.

A etnologia é desenvolvida a partir da observação das sociedades “primitivas”, contrariando o sentimento de “superioridade” da civilização européia.

Por outro lado, baseada em fontes comuns à etnologia, nasce à psicanálise com Freud, como outra proposta científica de compreensão das representações de mundo, a partir do inconsciente.

Para o autor, os anos 1880 e 1914, foram responsáveis por grande parte da elaboração intelectual, nas ciências da natureza e sociais, fontes das principais transformações da “modernidade”.

No entanto, o autor deixa escapar (em parte) outra característica da modernidade, trata-se, a meu ver, do conflito entre o desenvolvimento das ciências e a busca de uma racionalidade para a religião (protestante) européia. Basta se lembrar que, Kant, por exemplo, era muito interessado numa filosofia da religião.

Este desenvolvimento científico, impulsionou teólogos-filósofos (e vice-versa) a elaborarem respostas às crises do homem moderno, tanto para devotos quanto para céticos. Deste conflito, configura-se uma “teologia liberal” aos olhos dos mais conservadores, produzida nas academias européias, e que de certa forma representa uma transformação na forma de interpretar as representações sobre o mundo. Este conflito da religiosidade racional européia não será a mesma presenciada, como por exemplo, nos Estados Unidos, berço do fundamentalismo moderno. Na Europa, os teólogos liberais dialogavam sem muitos problemas com Darwin (1809-1882) e Nietzsche (1844-1900), ao passo que entre os fundamentalistas da América era impossível este diálogo.

Influenciados pelas ciências nascentes na “modernidade”, como aponta Delacampagne, teólogos europeus como Friedrich Schleiermacher (1768-1834), inicialmente influenciado por Kant, antecede estas preocupações e configuram também na transformação da filosofia. Rompeu com o pensamento kantiano, aproximando-se do romantismo e ficou conhecido como o “pai da teologia moderna”. Depois dele, podem ser citados pensadores como Albretch Ritschl (1822-1889), Adolf Harnack (1851-1930), idealizadores de uma ética cristã moderna para a Europa moderna, que experimentaria em seguida, uma de suas primeiras atrocidades, a Primeira Guerra Mundial, como também aponta Delacampgne.

Ainda é possível citar nestes exemplos pertinentes ao período apontado por Delacampagne, pensadores como Rudolf Bultmann (1884-1976), que influenciado por Martin Heidegger (1889-1976), elaborou um método que ficou conhecido como “demitização”. Argumentava que o homem moderno não toleraria a mentalidade supersticiosa dos discípulos, e portanto, precisaria, de acordo com a mentalidade moderna e científica, submeter os escritos até então sagrados à uma demitologização.

Outros dois personagens herdeiros destes conflitos religião-modernidade, foram os teólogos-filósofos Ernst Troeltsch (1865-1922) influenciado por seu amigo Weber (1864-1920), e Paul Tillich (1886-1965) cujo pensamento foi influenciado por Friedrich Schelling (1775-1854). Ambos são responsáveis por consideráveis produções intelectuais, pertinentes às preocupações da modernidade no século XX.

Se a poesia e as artes, elaboram novas formas de interpretação sobre a mundo a partir das preocupações da modernidade, por que não considerar o movimento teológico-europeu do mesmo período? Não estaria ela rompendo com os limites do dogma e da tradição, assim como outros segmentos intelectuais?

A meu ver, a história da filosofia e das transformações sociais decorrentes no século XX, não pode desconsiderar estes fatores.

Reitero, no entanto, que as reflexões de Delacampagne contribuem para o debate produtivo sobre o surgimento complexo da modernidade.

Um comentário:

  1. Téo não encontro palavras para expressar aqui a minha admiração, no conteúdo do seu texto ,olha posso dizer também que aprendo muito lendo...

    Professor rsrsr um bj sol

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