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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Resenha: "Proceder" - MARQUES, Adalton

MARQUES, Adalton. “Proceder”: ‘o certo pelo certo’ no mundo prisional.[1] FESPSP - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (TCC Sociologia e Política), 2006.

Esta resenha foi apresentada na discussão com "Grupo de Estudos Violência e Religião" - Mackenzie, cujo orientador é o Prof. Dr. Ricardo Bitun. 

O trabalho de Adalton Marques é uma excelente etnográfia sobre a cartografia simbólica no interior de um sistema prisional, cujas categorias “nativas” delimitam espaços “sagrados e profanos”: o “convívio”, o “seguro”, e a “cela dos evangélicos”.

Tal sistema de regra é criado pela população prisional a fim de estabelecer os que agem ou não com o “proceder”. Trata-se de leis internas que determinam os modos adequados para o convívio, punindo aqueles que as violam: tais leis vão desde as formas como estabelecer uma relação de amizade ou “respeito” a comportamentos.

O espaço dos “homens honrados”, isto é, aqueles que “tem proceder” é chamado de “convívio”. Segundo o autor, trata-se de um “espaço investido de sacralidade” (p. 25), onde a honra dos indivíduos são constantemente provadas. O termo “ladrão” é qualificado para descrever aqueles que têm “proceder”, em oposição ao “mané”.

Outro espaço descrito pelo autor é o “seguro”. Trata-se de um lugar reservado aos indivíduos que não conseguiram manter-se no “convívio” por não terem o “proceder”. Este lugar é uma criação institucional, chamado também de “espaço dos escondidos”, pois é reservado aos presos ameaçados no “convívio”. Tal lugar é um “seguro” que garante a integridade de indivíduos acusados de “estupro”, “pé-de-pato” (justiceiros) e indivíduos que tem inimigos no “convívio”. Estes são punidos pela sociedade e também pelos detentos, classificados por estes como não tendo “proceder”. Segundo o autor, este é o primeiro lugar a ser invadido quando ocorre uma rebelião, cujo objetivo é punir com morte seus habitantes.

O terceiro espaço é a “cela dos evangélicos”, o espaço religioso. Trata-se de um espaço intermediário entre o “seguro” e o “convívio”. Ao contrário do “seguro”, o espaço religioso dos evangélicos é respeitado e permitido no “convívio”, desde que seu comportamento cristão seja provado. Há uma perseguição àqueles que supostamente se “escondem atrás da Bíblia”. Embora possam conviver no “convívio”, aos evangélicos não é permitido participar de seus litígios, como por exemplo, fumar, possuir celular, além de serem identificados pelas vestes. O violador está sujeito a ser enviado para o “seguro” ou mesmo ser morto. Sua conversão é constantemente vigiada. Marques destaca que a “cela dos evangélicos” não sofre o mesmo rebaixamento moral dirigido aos do “seguro” (p. 29).
 
NOTA: A pesquisa de campo foi realizada na Penitenciária José Parada Neto e Instituição Cláudio Amâncio, em São Paulo. A dissertação de Mestrado foi defendida recentemente (2009) na USP.

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