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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Resenha: "Religião, política e espaço público" - LEITE, Marcia Pereira.

LEITE, Marcia Pereira. “Religião e política no espaço público: moradores de favelas contra a violência e por justiça”. In: Religiões e Cidades: Rio de Janeiro e São Paulo, p. 207 à 228. ALMEIDA, Ronaldo & MAFRA, Clara (Org). Terceiro Nome, 2009. São Paulo.

Esta resenha foi apresentada numa reunião do "Grupo de Estudos Violência e Religião" - Mackenzie, orietado pelo prof. dr. Ricardo Bitun.

Neste artigo, Marcia Leite tem por objetivo demonstrar como símbolos, valores, categorias e rituais religiosos se configuram em importantes mediações, chamada por ela de “simbólicas”, na constituição de algumas “comunidades de sentido”, como por exemplo, as “mães de vítimas de violência” no Rio de Janeiro.

O contexto para tal ação simbólica se encontra na outrora “Cidade Maravilhosa”, sob domínio cada vez mais crescente da violência e do tráfico de drogas.

Segundo a autora, estes elementos circunscrevem uma nova imagem à Cidade, definindo os “cuidados de seus habitantes no cotidiano”, a “circulação de visitantes”, bem como, as “repercussões sobre os atores, pautas e modalidades de ação” neste espaço.

Tais elementos contribuíram para “rachar” a Cidade em suas partes, a saber, o “asfalto” e a “favela”, trazendo estigmas sobre os moradores da ultima. Da perspectiva do “asfalto”, cujo apoio midiático e ação policial são favoráveis, a “favela” torna-se a principal fonte de suspeitas, tornando-os indesejáveis e excluídos. No entanto, a “cidade partida”, buscaria uma forma de unir forças em busca de uma luta comum.

A crescente violência motivou o surgimento de movimentos cívicos nos anos 90 (por ocasião da chacina da Candelária e Vigário Geral – 1993), como por exemplo, a campanha Viva-Rio. Esta mobilização cívico-religiosa tinha por objetivo unir as duas pontas da Cidade, o “asfalto” e a “favela”, contra a violência e em busca de justiça.

A autora aponta como as expressões da Cidade e de seus habitantes foram construídas por meio de categorias e práticas religiosas nestas campanhas pela paz. A religião é vista como fonte de atribuição de sentidos à vida, propiciando uma percepção das injustiças sociais por meio de suas categorias e valores. Entre estas religiões, menciona o pentecostalismo como constituidor de sentido moral, fato que torna alguns crentes respeitados moralmente diante dos traficantes.

A partir do sentimento de perda experimentada por pais, parentes e amigos, surge uma mobilização civil e religiosa ecumênica, na busca de superação e redenção da Cidade. Desse modo, a autora se interessa em compreender a ação simbólica das mães de vitimas de violência, cujo fato religioso é fundamental. Tal ação é construída por intermédio de uma alusão religiosa. O “vinculo afetivo que envolve o intenso sofrimento pela perda do filho” fundamenta sua “reclamação” e ao mesmo tempo “doação” em prol de uma causa, “assim como fez Maria mãe de Jesus”. Trata-se, portanto, de uma ação de sofrimento pela redenção dos outros (Cidade). As vítimas, através da ação de seus parentes se transformam em “mártires” de uma causa em prol de justiça e paz.

Esta rede de mães de vítimas, somando forças com outros movimentos cívico-religiosos, acionam o “idioma da ação” e “banco símbolos”, constituindo um recurso simbólico capaz de confrontar a “cultura do medo”, agregando atores, legitimando formas e pautas de ação coletiva. Suas lutas, embora limitadas, reivindicam justiça, opondo-se a constante violência policial, acusados de abusar do poder.

No entanto, surge um embate político resultante de uma possível representação moral, que cria uma ruptura entre mães de inocentes “vítima da violência” e mães de traficantes, apontados ao lado da ação policial como “causadores da violência”. Trata-se da relação entre as “mães do asfalto” e as “mães da favela”. A primeira categoria goza de alguns privilégios e hierarquia social, apoio da mídia, enquanto a segunda é estigmatiza como “mães de traficantes”, e identificadas muitas vezes como coniventes.

A autora chama atenção para o fato de que as “mães da favela”, embora chamadas para participar de movimentos cívico-religiosos, “elas quase nunca ocupam a linha de frente”, devido a esta ruptura de representação que descrevi acima.

A autora conclui demonstrando as limitações de tais ações, mas reforça a capacidade de agregação por parte dos símbolos religiosos.

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