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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Resenha: "Teoria da Magia" - MAUSS, Marcel & HUBERT, Henri

A Noção de "Mana”.

Esboço de uma teoria geral da magia, in: Sociologia e Antropologia, p. 47 à 181. MAUSS, Marcel. Cosac & Naify, 2003 [1950]. São Paulo.

Resenha produzida para disciplina Antropologia III - na ESP - Escola de Sociologia e Política (2010).

O objeto sobre o qual Mauss empreende uma exaustiva pesquisa não era novidade em seu tempo, se forem listados os trabalhos da Escola das Religiões Comparadas (Europa), cujo representante máximo foi Max Müller e sua conhecida teoria “naturalista”, contestada por Durkheim em “As Formas”; trabalhos pragmáticos de alquimistas e trabalhos de teólogos, cujos objetivos eram apologéticos, portanto, não científicos.

O método desenvolvido pela Escola das Religiões Comparadas, como disciplina independente, foi incorporado nas Universidades Alemãs e Americanas, e depois adotada nos programas de Teologia a partir dos trabalhos de Christian Ferdinand Baur, William Wrede, Ernst Troeltsch, entre outros. Generalizar a afirmação de que estes teólogos e filósofos partiam de suas crenças para então estabelecer a superioridade do cristianismo, não procede em alguns casos. Questionavam inclusive esta superioridade. Acreditavam, assim como sociólogos e antropólogos, que estavam contribuindo cientificamente para a explicação do fenômeno religioso a partir dos manuscritos antigos e mitos bíblicos. Acreditavam poder explicar que tais mitos surgiram a partir dos contatos com outros povos. Submetiam os manuscritos antigos uma rígida investigação exegética, a partir de seu ambiente chamado “sitz in liben” (contexto vivencial). Portanto, não compartilho com a idéia de que a antropologia ou a sociologia (ou qualquer outro ramo do saber), isoladamente, seriam capazes de tais empreendimentos científicos. A crítica de Mauss, é certamente aplicada a uma teologia “fundamentalista”, “dogmática” e “intra-muros de uma religião ou confissão”, e não necessariamente à teologia histórico-crítica ou cultural, dos estudiosos mencionados acima. É uma pena, que estes estudiosos (da antropologia, história e teologia, etc) não tenham buscado aproximações no diálogo.

Mauss, por outro lado, delimita a natureza de sua pesquisa ao distinguir os trabalhos “práticos” e “especulativos” relegados, segundo ele aos teólogos, filósofos e alquimistas, dos trabalhos “científicos” que seriam produzidos pelos antropólogos, cujos primeiros são creditados aos irmãos Grimm.

Embora a antropologia tenha dado ousados passos na investigação cientifica, Mauss aponta para a necessidade de aprofundar esta investigação, principalmente sobre a magia, procurando ir além dos trabalhos que o antecederam, como as teorias, correntes em seu tempo, formuladas por Morgan, Tylor, e, especialmente o mais influente antropólogo, Frazer, em seu trabalho “O Ramo de Ouro”.

Segundo as críticas de Mauss, Frazer limitou a magia à “mágica simpática”. Em Frazer, magia era entendida como práticas destinadas a produzir efeitos especiais pela aplicação de duas leis simpáticas: a lei da similaridade (quando um rito mágico produz o semelhante pelo semelhante) e a lei da contigüidade ou de contaminação (quando o rito mágico é produzido a partir de um contato, com um objeto pertencente a uma pessoa).

Ainda segundo Frazer, a religião teria se desenvolvido pelo fracasso da magia diante da explicação dos fenômenos do mundo. Ao perceber que o mundo lhe resistia, o homem passou a atribuir suas forças misteriosas ao mundo.

Nesse sentido, magia é distinguida da religião e considerada a primeira forma de pensamento na etapa do desenvolvimento humano.

Mauss, no entanto, considera esta teoria, apenas como “teoria das ações simpáticas” e não da teoria em geral, pois Frazer desconsiderou diversos elementos essenciais da magia, como por exemplo, a construção social do mágico e suas ações.

Mauss tem a certeza que o objeto de sua pesquisa ainda está por se compreendido e que “ninguém nos forneceu até o presente a noção clara, completa e satisfatória da magia, da qual não poderíamos abrir mão” e continua “somos então levados a constituí-la nós mesmos”.

A partir de uma vasta documentação etnográfica, Mauss procura compreender a noção de magia em diversas culturas, estendendo e complexificando esta noção.

A tese geral de Mauss é que “os indivíduos sobre os quais se atribui o exercício da magia, já possuem uma condição distinta no interior de uma sociedade que os trata como mágicos”. Para Mauss, trata-se, portanto de uma construção social, pois não é mágico quem quer, mas quem possui qualidades já reconhecidas pelo grupo social. O mágico, com esta atribuição construída em torno de sua ação, que efetivamente o qualifica como tal, nem sempre efetua a prática ritual em seu estado “normal”. Estas qualidades são socialmente definidas como “anormal”, principalmente quando o mágico possui algumas características físicas, tidas como traços ou qualidades de que é mágico, como transes, estados catalépticos, etc.

Segundo Mauss, a noção de “mana”, por exemplo, torna clara a forma como é constituída a noção de magia em entre alguns povos. Esta noção antecede, portanto, a noção de magia, e conseqüentemente a noção de sagrado.

“Mana” é uma palavra encontrada no vocabulário dos melanésios e comparada com outras palavras de outras línguas, como por exemplo, kramat (árabe), deng (Indochina francesa), hasina (malaio-polinésia), e orenda (iroqueses).

O significado básico destas palavras consiste em construir uma noção de “coisas sagradas”, “poder”.
Se estas noções são construídas socialmente, então, torna compreensível como é constituída a concepção de magia.

Segundo Mauss, as qualidades atribuídas ao “agente” da magia, ao “rito” (ação) e a “representação das coisas”, tem origem na noção de mana, sendo portanto base para compreender a eficácia atribuída a magia, ou seja, a magia é reconhecida socialmente como produzida por pessoas qualificadas para tal. Elas possuem “mana”, isto é, “poder”, “autoridade”. Dessa forma, mana se refere ao poder do feiticeiro, da qualidade de alguma coisa, coisa mágica ou o agir magicamente.

“Mana” não é simplesmente uma força, um ser, mas também qualidades de uma ação e qualidades de uma pessoa. Nesse sentido, a noção produz o “valor das coisas”, “das pessoas”, “do mágico” e também do “social”. Pode se referir à ação do sujeito, sua substancia e essência; as qualidades que alguém possui; aos seres espirituais e suas atividades. “Eis porque só pode ser manejado por indivíduos com mana, num ato de mana, por indivíduos qualificados num rito”.

A partir de Mauss, tem-se uma definição geral da noção de mana: Trata-se de uma de uma construção social que qualifica coisas (substancia/essência de um objeto qualquer) e ações de um agente (seres espirituais ou seres corporais). A fusão destes elementos (não levadas em consideração por Frazer) torna clara a qualificação que, socialmente se atribui a magia.

Portanto, a crença na magia e nos agentes que a produz, provem de uma forma excepcional: o mana. Dessa forma, conclui-se que a noção de mana antecede a noção durkheimiana de sagrado, visto que o sagrado depende da qualificação que lhe atribui. Um objeto qualquer só tido como “sagrado” (ou mesmo profano) em decorrência do mana que lhe atribuem.

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