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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A pentecostalização da política: uma análise sociológica

1. Contextualização histórica

O pentecostalismo, nome pelo qual ficou conhecido pela ênfase que dá à atualidade dos dons espirituais,[1] é uma vertente do protestantismo norte-americano do século XX, com raízes históricas no Pietismo e Metodismo,[2] movimentos que por sua vez, enfatizavam uma ascese radical de santificação individual e isolamento do mundo. Esta linha de protestantismo que se desenvolveu na América do Norte, diferente do protestantismo europeu, é procedente de movimentos cristãos conhecidos como “puritanos”, "evangelicais" ou “fundamentalistas” e suas principais características eram a pregação conversionista e as doutrinas milenaristas, que por sua vez configuraram a teologia pentecostal.

A partir da América, o pentecostalismo se expandiu, indo além das duas grandes vertentes do cristianismo: o catolicismo e o protestantismo histórico[3]. Na América Latina é possível perceber esta acentuada expansão.

O Brasil, cuja principal característica é a diversidade religiosa, se destaca pela notória presença e expansão do pentecostalismo, que já completa seu centenário. Com as primeiras igrejas pentecostais surgindo por volta de 1910/11,[4] iniciaria também uma nova postura em relação ao mundo secular. Entretanto, estas igrejas passaram por sucessivas transformações internas que possibilitou uma nova interpretação em relação ao que era considerado “mundano”, inclusive a participação política. Isso tornou o movimento pentecostal ainda complexo e heterogêneo.

Quanto ao campo religioso brasileiro, o pentecostalismo tem chamado bastante atenção dos cientistas sociais dispostos a compreender este fenômeno religioso, até então “marginalizado” e sem interesse pela academia. Suscitou-se uma diversidade de abordagens teóricas na tentativa de compreender suas principais transformações e influências no Brasil. As primeiras preocupações direcionam-se em ordenar esta diversidade religiosa por meio de classificações atualmente superada em alguns aspectos – pelo dinamismo do pentecostalismo – mas, ainda com consideráveis contribuições.

Buscando dar lógica às transformações e diversidades pelos quais o pentecostalismo passou (e passa) em solo brasileiro, Paul Freston (1992) e depois Ricardo Mariano (1996) foram os primeiros sugerirem esta ordenação com a metáfora das “ondas”, nas quais se identificaram pelo menos três:

A primeira onda de 1910 a 1950, chamada Pentecostalismo Clássico (Assembléia de Deus e Congregação Cristã no Brasil), cujas principais características seriam a ênfase no batismo com Espírito Santo e o falar em línguas, usos e costumes rígidos e rejeição ao mundo secular (inclusive à política) em detrimento de um de uma recompensa no mundo escatológico[5].

A segunda onda, de 1950 a 1970, conhecida como Pentecostalismo Neo-clássico ou Deutero-pentecostalismo (Brasil para Cristo, Deus é Amor e Quandrangular), cuja principal característica seria o evangelismo para além dos templos (cruzadas em ginásios, estádios de futebol, etc), utilização dos meios de comunicação de massa (o rádio em especial) e ênfase na cura divina.

A terceira onda, de 1970 à atualidade, identificada como Neo-pentecostalismo, caracterizado pela importação da chamada Teologia da Prosperidade[6] surgida na América do Norte, rejeição do estigma causado pelos usos e costumes adotado pelos pentecostais anteriores, forte ênfase na fé e no tele-evangelismo (rádio, TV, etc).

As tipologias pentecostais, longe de ser uma classificação satisfatória, nos permitem pensar a diversidade e as principais transformações dessas igrejas no Brasil, bem como suas mudanças e aberturas para a participação política. Sabe-se que os pentecostais representam atualmente uma grande parcela do eleitorado brasileiro, fato que chama atenção dos partidos políticos.


2. Contextualização doutrinária


O pentecostalismo, que se apresentou como avesso a exposição pública e auto-enclausurada pela busca do mundo além, destaca-se atualmente pelo contingente numérico e comunicação de massa. Percebe-se cada vez mais a interferência de grupos pentecostais na esfera política, lugar que antes condenava. Mas o que teria acontecido?

A suposta rejeição ao mundo pode ser compreendida a partir de sua teologia. O contexto político sobre o qual se desenvolveu a teologia do Pentecostalismo Clássico, isto é, de 1910 a 1950, abrangeu as duas grandes guerras mundiais. Além disso, este pentecostalismo teria adotado como opção a teologia da vertente fundamentalista norte-america, até então em oposição à teologia liberal européia[7]. Essa teologia consistia numa interpretação literal da Bíblia, que fazia uma leitura da história humana como já determinada por eventos catastróficos, conhecida como “milenarismo”[8].

A doutrina milenarista teria passado também por diversas transformações ao longo do cristianismo. Houve entre os protestantes americanos (fundamentalistas) uma vertente desta doutrina conhecida como “pós-milenarista”, que fazia uma releitura literal das profecias bíblicas, até então tidas como “simbólicas” ou “alegóricas” pelos “Amilenaristas”, cujas interpretações provinham de Santo Agostinho. A “pós-milenarista” consistia na crença de que a Igreja deveria pregar o evangelho da paz e adotar uma ética solidária durante, literalmente 1.000 anos. Acreditava-se que Jesus voltaria no final dos 1.000 anos para julgá-los e premiá-los. Mas, aos poucos esta doutrina foi considerada utópica, visto que não aconteceu o esperado.

A decepção “pós-milenarista” deu origem a uma nova vertente, a chamada “pré-milenarista”, que por sua vez, interpretava o “milênio” de Apocalipse como um evento futuro a ser almejado. Entretanto, antes deste “milênio” ser erigido, o mundo passaria por diversas crises e catástrofes. Portanto, esta doutrina consistia na crença de que a ruína precedia a vinda de Cristo e que não cabia tentar melhorar o mundo, pois a decadência faria parte dos planos de Deus. Bastava-lhes ler o “fim do mundo” a partir das inevitáveis profecias.

Esta doutrina teria influenciado os líderes do pentecostalismo e inserida no Brasil por ocasião de sua pregação. Isso, talvez, possa explicar a recusa dos primeiros pentecostais em participar da política ou realizar qualquer sorte de filantropia, pois os males sociais são vistos como castigos divinos contra os infiéis, que seriam curados apenas pela conversão.

Embora ainda se encontre esta doutrina entre os pentecostais, pode-se afirmar que ao logo dos últimos 100 anos, ela teria se transformado. O sectarismo e o ascetismo começaram a ceder lugar à acomodação ao mundo, embora ainda haja igrejas ascéticas e resistentes à participação política.


3. O eleitorado pentecostal e a participação política


Na América Latina, especialmente no Brasil, a força eleitoral dos pentecostais é cada vez mais perceptível, e por sua vez, assediada. Segundo pesquisas (MARIANO & PIERUCCI, 1992), em 1990 a CNBB – Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, estimava 16 milhões o numero de evangélicos; em 1991, o CONIC – Conselho Nacional das Igrejas Cristãs calculava 30 milhões, dos quais 24 milhões, 80% eram pentecostais; e em 1992, a AEVB – Associação Evangélica do Brasil estimava 35 milhões de evangélicos, dos quais 25 milhões eram pentecostais. O Censo de 2000 apontou o número de pentecostais para aproximadamente 26.184.942, isto é, 15,5% da população brasileira (CAMPOS, 2004).

Segundo Mariano e Pierucci (1992), 1986 teria sido o marco histórico da participação política dos pentecostais. Neste ano teriam elegido 33 parlamentares evangélicos para o Congresso Nacional Constituinte, sendo a maioria da centenária Assembléia de Deus, seguida da Igreja Universal do Reino de Deus, isto é, duas grandes representante do pentecostalismo clássico e neo-pentecostal.

Os pentecostais (enquanto instituições), que estiveram ausentes nas lutas democráticas contra o regime ditatorial de 1962 a 1985, e ausentes nas chamadas “diretas já”, em 1984, tiveram a eleição de 1989 como seu primeiro forte envolvimento político. No primeiro momento, setores evangélicos pretendiam lançar a candidatura de um candidato protestante: Iris Rezende, então ministro da Agricultura do Governo Sarney.

Rezende teria recebido apoio de mais de 700 empresários e pastores evangélicos (maioria pentecostal), mas foi derrotado pela indicação de outro nome forte no partido (PMDB), Ulisses Guimarães, presidente do partido. Com Rezende fora de candidatura, os líderes evangélicos se dedicaram na busca de um novo “escolhido”.

Ainda de acordo com Mariano e Pierucci, as igrejas pentecostais (A.D-Belém e Madureira) teriam sido assediadas por Ulisses Guimarães (PMDB), Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS), Fernando Collor (PRN). Collor chegou a participar dos programas de rádio e TV da IURD (Igreja Unioversal do Reino de Deus).

Diante da variedade de candidatos, os líderes pentecostais recomendavam para fiéis evitarem os candidatos de “esquerda”, isto é, os supostos candidatos “comunistas”, pois segundo estes líderes, representariam “perseguição religiosa”. Além disso, a doutrina “pré-milenarista” (reinterpretada no período de Guerra Fria), tendia a demonizar o comunismo como uma figura anti-cristã.

Com o segundo turno das eleições presidenciais, os líderes pentecostais apoiaram Collor ao invés de Lula, acionando uma série de discursos escatológicos como a instalação do regime comunista e o perigo de intolerância religiosa e fechamento das igrejas. O candidato da direita teria também se aproveitado da fobia pentecostal para se fortalecer.

Parece que o mesmo cenário volta a se repetir, principalmente quando se envolve questões como "aborto", "liberdade religiosa", tônicas da moralidade cristã. Desse modo, os candidatos se revestem desse ou daquele modo para agradar seus eleitores e muita vezes para se justificar das posturas "fundamentalista".

Uma nova onda (não tão nova) desse fundamentalismo gira em torno de uma "escatologização", isto é, em torno de supostas "profecias" que apontaria para uma "Nova Ordem Mundial", "fim do mundo", etc. Trata-se sem dúvida, de mais uma paranóia fundamentalista, utilizada inclusive por candidatos evangélicos, cujo objetivo é obter votos mediante ao "terrorismo escatológico". Anote isso: essa paranóia se reinventará em outros momentos, com novas figuras e personagens.

É uma pena que a participação de alguns pentecostais na política se dê logo dessa forma.

NOTAS:

[1] O termo “pentecostal” provém de uma das grandes festas judaicas, conhecida também como “festas das primícias” ou das “colheitas”. Numa destas festas, teria ocorrido uma manifestação do Espírito Santo, que teria capacitado os discípulos a desenvolverem sua pregação. Estas capacidades são chamadas “dons” ou “carismas” pelos cristãos (cura, milagres, etc). O grupo cristão que enfatiza estes dons na atualidade passou a ser conhecido no Brasil como “pentecostais” e nos Estados Unidos como “carismáticos”.   

[2] O Pietismo é uma reação ao luteranismo, considerado “frio” e “estéril”. O pietismo, assim como o metodismo na Inglaterra, enfatizava a santificação e a experiência de conversão individual.

[3] Classificam-se como “protestantismo histórico” as igrejas provenientes da Reforma Protestante.

[4] As primeiras igrejas pentecostais são as Assembléias de Deus, originalmente chamadas de “Missão de Fé Apostólica”, fundadas por dois missionários suecos vindos da América do Norte, Daniel Berg e Gunnar Vingren; e Congregação Cristã no Brasil, fundada pelo italiano vindo também da América do Norte, Lois Francescon. Berg e Vingren eram missionários filiados à igreja Batista e Francescon era ministro presbiteriano. Nos Estados Unidos, estas denominações eram consideradas “fundamentalistas”, isto é, representavam uma oposição às igrejas “liberais” da Europa.

[5] Acreditava-se que Jesus voltaria para estabelecer um reinado literal de mil anos sobre a Terra, e, portanto, cabia-lhes anunciar o fim dos tempos que antecediam este reinado. O termo “escatologia” se refere ao sistema de crença em relação ao futuro.    

[6] A Teologia da Prosperidade é uma adaptação cristã ao capitalismo. Diferente da teologia do pentecostalismo clássico, que enfatizava uma “providencia” divina para o sofrimento humano, a teologia da prosperidade enfatiza uma postura de “cobrança” diante das “promessas” de Deus na Bíblia. Acreditam que os cristãos devem desfrutar de todos os bens terrenos; que não devem sofrer ou terem enfermidades. Os cristãos que ainda estão nestas condições, precisariam exercer a fé e “cobrar” de Deus. Um dos meios de colocar a fé em prática é estabelecendo uma relação de “troca” enfatizada por uma nova interpretação do “dízimo”, configurando o “dar e receber”. 

[7] A teologia protestante européia (Alemã) passou por um desenvolvimento intelectual desde o Iluminismo, que resultou numa “teologia cientifica”. Esta teologia moderna procurava ajustar a fé cristã à ciência, de modo que o sobrenatural e os supostos milagres eram tidos como “mitos” e frutos de uma mentalidade supersticiosa dos primeiros discípulos, superada pelos modernos. Esta postura que custou o titulo de “liberais”, eram comum nas igrejas protestantes européias. Em oposição a esta teologia, surge nos Estados Unidos a chamada “teologia fundamentalista”, por enfatizar as “verdades” eternas e “fundamentais” do cristianismo, como “milagres”, “inspiração divina da Bíblia”, etc. O pentecostalismo herda esta teologia. 

[8] Trata-se do “milênio” descrito em Apocalispe. Este período teria sido interpretado das mais diversas formas. A interpretação “Amilenista” sugeria um período simbólico para o sucesso do pregação cristã (Agostinho); A “pós-milenista” a interpreta de modo literal, estabelecendo a “volta de Cristo” para o final dela; e a “pré-milenista” também a interpreta de modo literal, entretanto, antecede a “volta de Cristo”, que por sua vez é precedida por inevitáveis catástrofes (reinado do Anticristo, questões climáticas, etc). A teologia pentecostal é derivada desta ultima. A concepção da política tem origem nestas interpretações.  
Referências Bibliograficas

CAMPOS, Leonildo Silveira Campos (2004). “Protestantismo brasileiro e mudança social”. In: Sociologia da Religião e Mudança Social: católicos, protestantes e novos movimentos religiosos no Brasil, SOUZA, Beatriz Muniz de & MARTINO, Luis Mauro Sá. São Paulo: Paulus.

FRESTON, Paul (1993). Protestantes e Politica no Brasil: da constituinte ao impeachment. Campinas, Tese de Doutorado – IFCH-Unicamp.

MARIANO, Ricardo (1996). “Os neopentecostais e a teoria da prosperidade”. In: Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 44, março/1996.

MARIANO, Ricardo & PIERUCCI, Antonio Flávio (2009). “O envolvimento dos pentecostais na eleição de Collor”. In: Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 34, novembro/1992.

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