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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O ritual do corpo entre os Sorie-Lisbra

Este ensaio foi inspirado no "Body ritual among the Nacirema" (O ritual do corpo entre os Sonacirema) do antropólogo americano, Horace Minner, publicado na American Antropologist, vol. 56 de 1956. O texto foi traduzido pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. 

O cuidado com o corpo, seja por estética ou por necessidade de sobrevivência, ocupou desde sempre o centro da preocupação de muitos povos em diversas culturas. Este ensaio pretende demonstrar os modos como os Sorie-lisbra encaram o corpo e suas atividades.

Muitos estudiosos, como Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Oracy Nogueira, Emílio Willems, Claude Lévi-Strauss e Roberto DaMatta, cada um sob sua perspectiva, já chamaram atenção para a história, comportamento e diversidade desse povo, conhecidos por sua miscigenação e práticas mágicas. No entanto, a cultura desse povo, por mais de cinco séculos, permanece ainda complexa e pouco compreendida.

Os Sorie-lisbra são um grupo sul-americano que vive num vasto território próximo à Venezuela, Paraguai e Uruguai. Pouco se sabe de sua origem, embora a tradição mítica afirme que eles procederam da mistura dos ibéricos, africanos e ameríndios.

A cultura Sorie-lisbra se caracteriza por uma economia de mercado em ascensão, que possibilita o conforto de alguns. Embora a maior parte do tempo das pessoas, nesta sociedade, seja devotada a ocupação econômica, uma considerável parte do dia são despendidas em atividades e rituais. O foco desta atividade é o corpo humano, cuja aparência e saúde constituem a preocupação dominante dentro dos valores deste povo.

A crença fundamental deste povo parece ser a de que o corpo humano é frágil, e que sua tendência natural é a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é evitar estas características, através do uso de poderosas influências do ritual e de cerimônias. Toda família possui um ou mais santuários dedicados a tal propósito. As famílias mais ricas possuem maiores condições em termos de qualidades nestes santuários, enquanto os mais pobres imitam os feitiços dos ricos.

Embora cada família possua ao menos um desses santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim privadas e secretas. Os ritos, normalmente, só são discutidas com as crianças, e isto apenas durante a fase em que elas estão sendo iniciadas nestes mistérios. Eu tive acesso a um destes santuários e passarei a descrever.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou arca embutida na parede, como uma estante. Nesta arca são guardados os inúmeros feitiços e porções mágicas, sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais feitiços e porções são obtidos de vários profissionais especializados. Dentre estes os mais poderosos são os curandeiros, especialista nos problemas do corpo. No entanto, o curandeiro não fornece as porções curativas para seus clientes, decidindo apenas ingredientes que nelas devem entrar, escrevendo-os em seguida em uma linguagem antiga e secreta. Tal escrita só pode ser decifrada pelo curandeiro e pelos herbanários que, mediante a troca de presentes, fornecem o feitiço desejado. Uso o uso dos materiais mágicos sem o consentimento do curandeiro, é considerado perigoso à saúde do corpo.

O feitiço não é descartado depois de ter servido ao seu propósito, mas é colocado na caixa de mágica do santuário doméstico. Considerando a diversidade de doenças e a especificidade de cada feitiço, a caixa de mágica costuma estar sempre transbordando. Acreditam que tais materiais mágicos os protegerão contra todos os males.

Embaixo da caixa existe uma pequena fonte. Todo dia cada membro da família, em sucessão, entra no quarto do santuário, curva a cabeça diante da caixa de mágicas, mistura diferentes tipos de água sagrada na fonte e realiza um breve ritual de pureza, pois acreditam que sem isto não conseguirá se relacionar com outras pessoas. Muitos só sentem o valor da água sagrada quando ela falta na aldeia. Por isso ela é considerada sagrada.

Na hierarquia dos profissionais da magia, abaixo dos curandeiros em termos de prestígios, estão os especialistas cuja designação é melhor traduzida por “homens da boca sagrada”. Os Sorie-lisbra têm um horror pela boca, e uma fascinação por ela, que chegam a criar superstições acerca dela. Acredita-se que a condição da boca possui uma influência sobrenatural nas relações sociais. Não fosse pelos rituais da boca os Sorie-lisbra acham que seus dentes cairiam, suas gengivas sangrariam, suas mandíbulas murchariam, seus amigos os abandonariam, seus amantes os rejeitariam. Assim, aprendem a desde crianças este ritual. Para isso utilizam um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos produtos mágicos, e em seguida na movimentação deste feixe segundo uma série de gestos altamente formalizados. Acredita-se que o aroma dos produtos mágicos afasta más influências e odores.

Além deste ritual bucal privado, as pessoas procuram o “homem da boca sagrada” uma ou duas vezes por ano. Estes profissionais possuem uma série de parafernálias, consistindo em uma variedade de perfuratrizes, furadores, sondas e agulhas. Estes objetos são utilizados no exorcismo dos perigos que ameaçam seus clientes. O “homem da boca sagrada” abre a boca do cliente e, usando as ferramentas citadas, alarga quaisquer buracos que o uso tenha feito nos dentes. Materiais mágicos são depositados nestes buracos. O objetivo destes produtos sobrenaturais é evitar o apodrecimento e atrair amigos.

Há outro ritual do corpo que é apenas realizado pelos homens. Esta parte do rito envolve uma escarificação e laceração da superfície do rosto por meio de um instrumento constante. 

Quanto aos ritos femininos, poderíamos destacar um que é realizado em ocasiões especiais. Como parte destas cerimônias, as mulheres assam suas cabeças em fornos ou instrumentos aquecidos por horas.

Em busca de cuidados para o corpo, as mulheres também se submetem a um exame, geralmente considerado constrangedor, realizado por um curandeiro. Seu corpo nu é submetido a um escrutínio, a manipulação e espetadela por parte deste profissional. Já os homens, são mais desconfiados com este ritual, e por vergonha, acabam morrendo por não se submeterem ao ritual mágico.

Ainda resta outro tipo de especialista nesta sociedade. Trata-se do “escutador”. Este feiticeiro tem o poder de exorcizar os espíritos que se alojam nas cabeças das pessoas que foram enfeitiçadas. Os Sorie-lisbra acreditam que os pais fazem feitiçaria contra seus próprios filhos. As mães são especialmente suspeitas de colocarem uma maldição na criança, enquanto ensinam a elas ritos corporais secretos. Neste aspecto, o “escutador” teria como missão produzir uma contra-magia. O paciente simplesmente conta ao “escutador” todos os seus problemas e medos, começando com as primeiras dificuldades de que se pode lembrar. É impressionante a memória de alguns pacientes, que chegam a se lembrar de problemas traumáticos do próprio nascimento.

Ainda é possível perceber a presença de outro profissional, responsável por ensinar as crianças os rituais mágicos que cerca a vida. Estes sábios são o depositário dos mistérios das ciências e magia deste povo e são conhecidos como “aios”. Nem sempre são levados a sério por seus contratantes, fato que leva estes profissionais a suspender temporariamente suas atividades e rituais. 

Para concluirmos, deve-se mencionar certas práticas que estão baseadas na estética nativa. Há jejuns rituais para fazer pessoas gordas ficarem magras, e banquetes cerimoniais para fazer pessoas magras ficarem gordas. Outros ritos ainda são usados para fazer os seios das mulheres maiores, se eles são pequenos, e menores, se eles são grandes. O mesmo fetiche acontece com o bumbum e a barriga, e porque não dizer com todo o corpo. Para isso, submetem-se a ritual de flagelação com cortes profundos no corpo. Ouvi história sobre pessoas que não sobreviveram ao ritual. Aquelas que alcançam estes patamares de beleza são idolatradas, e garante a vida simplesmente viajando de aldeia em aldeia, permitindo aos nativos admirá-las mediante a um cachê. Algumas destas mulheres se auto-identificam com nomes de frutas nativas, como “oãlem”, “caja”, “aicnalem”, “ognarom”. Tais frutas fazem parte do conteúdo simbólico e cultural da imaginação sexual masculina, por isso, as mulheres utilizam-se desse sistema ritualístico para os atraírem.   

Na sociedade Sorie-lisbra, as funções reprodutivas naturais são polêmicas e diversas. O intercurso sexual é tabu como tópico de conversa, e programado e planejado enquanto ato. Grandes esforços são feitos para evitarem a gravidez por meio de usos de materiais mágicos, ou pela limitação da prática sexual em certas fases da lua. Nas famílias mais pobres a concepção é mais freqüente, enquanto os ricos se preocupam freneticamente pelo controle. Utilizam um tipo de tripa de porco nem sempre resistente, mas muito recomendado. Quanto às grávidas, as mulheres se vestem de forma a ocultar seu estado. O parto se realiza em segredo, sem amigos ou parentes assistindo, e a maioria das mulheres não amamentam e nem cuidam de seus bebês por medo de perderem a juventude do corpo. Não é raro encontrar história de fetos e recém nascidos abandonados por mães.

Nota-se inimizade entre algumas aldeias. Uns acreditam serem mais dignos e modelos da divindade que outros. Determinadas características físicas que diferencia um indivíduo do outro, como a cor da pele ou dos olhos, é fator suficiente para se acreditar que o outro é inferior, e que não podem participar dos mesmos rituais ou freqüentar os mesmos lugares. Algumas tribos acreditam que são descendentes de seres superiores extraterrestre, a quem prestam cultos e desenvolvem rituais. Acreditam que serão levados para o planeta destes seres depois da morte.  
           
Nossa descrição da vida ritual dos Sorie-lisbra certamente mostrou que eles são um povo obcecado pela magia. É difícil compreender como eles conseguiram sobreviver por tanto tempo, sob os fardos pesados que eles mesmos se impuseram. Em que estágio de evolução cultural este povo estaria?

Obs. O texto foi adaptado para tratar dos brasileiros numa aula de Sociologia para alunos do ensino Médio. Serviu como exercício de estranhamento da realidade ou da cultura.