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sábado, 18 de setembro de 2010

Quando o palco é a praça: uma etnografia a partir da ficção de seus atores

Esta etnografia foi desenvolvida na Praça Rotary, como atividade para disciplina Tecnicas e Métodos em Pesquisa Qualitativa na Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESP.

São Paulo, 27 de agosto de 2010, 8:45 da manhã, caminho em direção ao cruzamento entre as ruas General Jardim e Dr. Cesário Mota localizadas na Vila Buarque, bairro de classe média localizado entre os metrôs Santa Cecília, República e Consolação, de onde é possível perceber diversos transeuntes configurando a lógica da metrópole, aparentemente aleatória e caótica, mas que se justapõem em suas próprias regras coletivas de sociabilidade.

José Guilherme Magnani (1992) já havia chamado atenção para esta dinâmica da cidade urbana ao propor categorias como mancha, pedaço e trajetos, para dar conta da territoriedade, das relações e regras de sociabilidade e do fluxo dos indivíduos. Desse modo, pretendo articular uma discussão etnográfica que permita compreender o espaço urbano da praça – e o arcabouço dessas categorias antropológicas – e a construção de significados atribuídos por seus atores.

De acordo com Magnani, a categoria mancha refere-se a uma “área contigua do espaço urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam uma atividade ou prática dominante” (1992:196), isto é, lugar identificado de forma ampla pelos estabelecimentos que possui, neste caso, o metrô, a Santa Casa, a Biblioteca Municipal Infantil, instituições de ensino, etc; ao passo que pedaço identificaria o “espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público” (1992:192,193), isto é, uma ordem espacial e física sobre a qual se estenderia uma rede de relações (por parentesco, amizades, etc), sejam lugares físicos como padaria, templos, bares, ou lugares que sugiram pertenças simbólicas entre indivíduos de gosto comum, conferindo a identidade de “pertencer ao pedaço”.

Em suma: o pedaço se localiza dentro da mancha, mas é estendido e aberto pelos trajetos. Enquanto a mancha, a área como um todo abriga pedaços de lazer e sociabilidade, os trajetos refletem os fluxos e permitem reformular a noção de que os atores seguem caminhos que não são aleatórios. Portanto, de acordo com Magnani, os trajetos ligam pontos e pedaçosdentro da mancha. Embora pareça redundante vale apena destacar mais uma vez, que a categoria mancha abarcaria a área como um todo, sendo possível estabelecer suas principais características e atividades, como por exemplo, os hospitais, as faculdades, os bares, etc.

Como já apontei acima, pretendo com estas categorias identificar de que modo os atores da praça pública na Vila Buarque identificam seus espaços de sociabilidade e lazer. Chamarei de ficção a demarcação territorial e simbólica que estes atores fazem da praça, bem como o modo como classificam os outros transeuntes anônimos, que, de sua perspectiva, “não fazem parte do pedaço”.

Os atores sociais e freqüentadores da praça em questão, muitas vezes anônimos entre si, mas ligados por algum em comum (trabalho, lazer, passeio, etc), movimentam a economia da cidade, visto que estabelecem relações de trocas, representadas por instituições jurídicas e comerciais como bares, restaurantes, bancos, escolas, livrarias, farmácias, bancas de jornal, etc. Mas, é preciso notar também que, referentes a estas relações de trocas “lícitas”, há também outras relações de trocas que são também estabelecidas na “clandestinidade”, o que configura a quebra de regras e a construção de outras, reconhecidas por grupos menores (ou maiores, não se sabe), como por exemplo, o tráfico de entorpecentes na região, confirmadas por moradores de ruas.

Cabe destacar que por estas ruas (General Jardim e Cesário Mota), nos idos dos anos 40 e 50, já caminharam ilustres figuras das ciências sociais no Brasil, como Donald Pierson, Emílio Willems, Oracy Nogueira, Florestan Fernandes, entre outros representantes de uma comunidade acadêmica conhecida como Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, fundada em 1933. Há inclusive, entre os atuais estudantes, uma reverência a estes nomes, como se seus “espíritos ainda habitassem o lugar”. Aliás, esse foi um dos discursos na admissão dos calouros em 2009, ao pé do antigo “abacateiro”. Estava claro que se tratava de um pedaço dos acadêmicos.

Mas, o fato que chamou a atenção, é que a existência de uma faculdade de Sociologia na região só passou a ser percebida com a construção do novo prédio. Os interlocutores da pesquisa de pronto apontavam a existência do Mackenzie, ao passo que a FESP lhes é desconhecida.

Ao passar por uma banca de jornal, notei que as noticias refletem as principais a atividades e preocupação típica de uma sociedade capitalista, e por assim dizer, consumista: trata-se do futebol, o glamour dos artistas e ofertas de empregos. Alguns jornais estampavam a notícia de que o ex-craque de futebol Rai, estaria sendo contratado para ser o novo técnico do time de futebol São Paulo Futebol Clube; enquanto outros dividiam a mesma manchete com Paulo Henrique Ganso, jogador do Santos Futebol Clube, que ficaria 6 meses em tratamento devido à uma contusão no joelho. Uma análise nas imagens é possível perceber a “alegria” e a “frustração”; um ex-jogador aclamado para socorrer a crise de um time que não que não está bem e um jovem jogador, com dores, sendo levado numa maca, acompanhado por médicos e auxiliares. Ambas as imagens refletem a paixão por esse mercado. Outras revistas prometiam descortinar a vida pessoal de artista famosos da TV, além de comentar “quem beijaria quem” na próxima cena da novela, complexificando a relação entre “ficção e realidade”. Outro jornal anunciava com letras garrafais a existência de 3.145 vagas de empregos para quem não tem experiência no mercado de trabalho. Entretanto, tratava-se de um jornal cujo mercado é a publicidade, o que levantaria dúvida entre os mais críticos. Enfim, as noticias que direcionavam aos mais diversos gostos e necessidades dentro da mancha.

Quanto aos atores multifaciais da praça, o que se pode perceber é que alguns vivem num ritmo frenético estabelecido por suas próprias relações econômicas e trabalhistas, como por exemplo, o motorista de táxi, o motorista da ambulância, os policiais, os motoboys, os operários da construção da FESP, etc. Observa-se também idosos de bengala, possíveis moradores da região passeando pelas ruas; moradores passeando com cães, alguns apresentando a nítida humanização dos animais, enquanto os moradores de ruas seriam o posto; e mães com seus filhos pequenos dirigindo-se a praça. Ainda na rua General Jardim, entre a FESP e a Praça Rotary, é possível verificar a existência de moradores de rua, com seus carrinhos e sacolas. Sabe-se também que dormem nessas calçadas e estabelecem outros tipos de relações que possibilitam a convivência na disputa pelo espaço público. A categoria pedaço, além de identificar espaço de pertença simbólica e lazer, poderia também dar contar dos “espaços negociados” para amenizar os conflitos.

É ainda possível problematizar algumas questões a partir do diálogo com um morador de rua de 32 anos de idade.

A primeira diz respeito à convivência entre os moradores de rua. De acordo com um morador de rua entrevistado, “é complicado morar na rua, pois ninguém confia em ninguém”. Segundo este morador, há um conjunto de regras que devem ser obedecidos para a convivência na rua, como “não roubar” do colega (cigarro, bebida); e não tomar o “ponto”, isto é, o lugar de dormir do outro (quando estes têm um lugar fixo). Esta quebra das regras são classificadas como “malandragem”. Segundo informou, dorme num lugar estratégico (próximo a FESP) por representar “segurança”, devido às rondas policiais. Informou que ao contrário de outros moradores, vive na rua por opção, pois tem família e lar.

A segunda trata-se da presença dos estudantes de sociologia, atuando como pesquisadores na praça. A movimentação de pesquisadores logo chamou a atenção, despertando uma desconfiança: seriam agentes da prefeitura ou investigadores de policia disfarçados? Logo que me aproximei e me apresentei, dois moradores de rua se sentiram ameaçados em seus pedaços, questionando o que seria esta pesquisa e por que das perguntas sobre a praça. Ambos dormem nas imediações e passam parte do dia na praça. Neste dia estavam estendendo suas roupas num circulo localizado no interior da praça. Um deles logo identificou-se como ávido leitor de psicologia e que estava avaliando minhas perguntas e comportamento; assim como já teria avaliado de longe os demais pesquisadores. O que se destaca aqui é o confronto entre pesquisador e pesquisado, e o "saber negociado" que se dá a partir daí. Desse modo, tive que me comprometer em dar-lhe uns livros de psicologia (sem uso) de minha biblioteca, bem como cópia das fotos que tirei dele.
A terceira questão que se colocar é a observação que fez dos transeuntes anônimos. Ao notar a presença de pessoas que passeiam com seus cães, chamou atenção para o fato de que são rotulados por estes como “poluidores” da praça, mas que em contrapartida, não colhem os dejetos de seus cães. Percebe-se que o morador de rua aciona um discurso de responsabilidade de limpeza da praça para destacar e delimitar sua pertença neste pedaço. Além disso, outros transeuntes representariam uma ameaça ao espaço de lazer, ao passear com seus cães “bravos” sem “funcinheira”, lembrando que a praça é freqüentada por mães com crianças pequenas. Dessas questões, se problematiza a idéia de que a convivência no pedaço só se viabiliza mediante ao cumprimento de suas regras, isto é, os indivíduos compartilham de um conjunto de deveres, que por sua vez são acionados por este ou aquele grupo que as vê (simbolicamente) quebradas.
Morador de Rua - 32 anos


Roupas estendidas no meio da Praça Rotary

A observação que o morador de rua faz dos transeuntes e seus trajetos são elaborados a partir uma série de classificações, que procura dar conta da diversidade presente na praça. Desse modo, delimita quem pertence ou não ao seu pedaço, como por exemplo: o “morador riquinho” que passeia na praça com seu cão; os “estudantes” que jogam futebol na praça; os “trabalhadores” em intervalo de almoço e os “malandros” que violam as regras das ruas, entre os que pude notar.

Referencia Bibliográficas.

MAGNANI, José Guilherme Cantor (1992). “Da periferia ao centro: pedaços e trajetos”, in: Revista de Antropologia. São Paulo, USP, vol. 35, p. 191-203.