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sábado, 27 de novembro de 2010

Devaneios da imaginação...

Este ensaio é resultado de um mono-diálogo entre amigos num espelho, embora não se saiba ao certo quem disse o que para quem disse...

De acordo com Gaston Bachelard, é impossível pensar ou elaborar – por mais simples que seja – uma linha poética ou filosófica sem a “imaginação”, capacidade pela qual as imagens materiais revestem-se de significados para além de si, atribuídas, entretanto, por quem as elabora. Qual processo?

Através dos símbolos das palavras as imagens refletem como espelhos os devaneios de quem se mira nela. Trata-se de ver a si mesmo e ao fazer isso buscar um monólogo consigo mesmo, o que neste caso já seria conforme Mikhail Bakhtin, um “dialogismo”. E que diálogo não se vê envolto por imagens, sejam as que se mostram veladamente ou esperam essencialmente? Quem ao olhar no espelho nunca se imaginou de outra forma, numa nostalgia de um passado memorável ou num éscathos utópico? É fato que somos seguidos por um amigo imaginário – no fundo, nós mesmos, aprovando-nos ou não. Estes gestos, olhares e hábitos corporais – para lembrar Marcel Mauss – faz-me pensar que somos mais que irmãos, talvez a mesma pessoa. Você conhece meus segredos, mesmo aqueles que tento esquecer.

Não são poucos os mitos que se estruturaram sobre a imaginação. Na incessante busca pela explicação da realidade das coisas, os mitos – que segundo Lévi-Strauss é fruto da linguagem – recorreram às imagens materiais para compreender a origem dos deuses, dos homens, do tempo, etc. Não é de surpreender os motivos pelos quais acreditavam terem sido um elemento material que sucedeu ao outro: da água a terra ou vice-versa, do ar ao fogo ou vice-versa.

Não se assuste com o fato da própria filosofia ter nascido no berço da imaginação mitológica e nem precisa dissimular espanto pelo fato dela ter se envergonhado por muito tempo desse passado. A partir de quais elementos materiais afinal os primeiros filósofos – me refiro aos pré-socráticos, Tales, Aneximandro, Anaxímenes – buscavam tornar racional a origem das coisas? Justamente as mesmas imagens materiais pelas quais os mitos se estruturaram: água, terra, vento. Ao demonstrar a transitoriedade das coisas, do mundo, do ser, que imagem material Heráclito utilizou? O movimento de um rio e o zig-zag do fogo. Por estas imagens, o antigo filósofo falava de metamorfose das coisas, das idéias, da vida, etc.

Nos mitos, religiões e culturas, estas imagens ou representações sociais, são utilizadas na categorização de sagrado e profano, sentimentos e ações. Ao mesmo que tempo que são universais – se é que o termo é correto – ao mesmo tempo é particular: depende da elaboração de quem se olha no “espelho”, isto é, depende da ocasião, da cultura, da temporalidade, etc.

Um dos mais singulares mitos – como o de Narciso – é suficiente para demonstrar esta relação entre a linguagem e a imaginação poética ou filosófica. Para Bachelard, Narciso representa o amor do homem por sua própria imagem, pois seu rosto se reflete nas águas. Nela, ele seduz a si mesmo. Encanta-se com a infinitude de sua beleza. Encanta-se com o eco de sua própria voz como se ela fosse proferida pelos deuses da beleza que, aliás, ele mesmo refletiu. Ainda citando Bachelard: “sua própria imagem é o centro do mundo”. A isto, complementa Joachim Gasquet: “O mundo é um imenso Narciso ocupado no ato de se pensar”. E onde ele se pensaria melhor senão em sua própria imagem ou quem melhor escutaria senão sua própria voz?

Não resta dúvida de que estamos mergulhados em nossas próprias imagens. Às vezes utilizamos algumas ferramentas teóricas – como um caleidoscópio – para que estas imagens tenha sentido: a sociologia e suas imagens dos fatos sociais; a antropologia e suas imagens culturais, a teologia e suas imagens ontológicas e reveladas; a química e suas imagens compostas; a física e suas imagens demonstráveis; a matemática e suas imagens infinitas; a história e suas imagens cronológicas; a filosofia e suas imagens do saber, etc.

Não seria pela legitimação de nossas próprias imagens estaríamos sempre em competição? Que fragmento de nós possui identidade? Quem – como Narciso – ao se olhar-se a si mesmo e contemplar-se no centro do mundo estaria disposto a desviar o olhar? Sem que nos demos conta afogamo-nos em nós mesmos, em nossas próprias imagens: orgulho, vaidade, falsa humildade, etc. Através delas queimamos, criamos tempestades, furacões, terremotos. Note que estas imagens podem ser elaboradas de diversos modos. Procuremos as águas mais transparentes e tranqüilas, quem sabe possamos nos ver com maior profundidade.

Caro amigo como você se parece comigo... mesmo nos devaneios, na angustia ou na ironia... Temos até o mesmo nome... Bom, chega, pois alguém pode te ouvir falando com o espelho...