Páginas

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Doce amarga sinfonia da vida


Better sweet symphony ou “doce amarga sinfonia” é um dos hinos urbanos da banda inglesa The Verve (recomendo), que indiscutivelmente faz parte da lista de minhas prediletas. Talvez umas das que mais representa o modo como vejo a “doce e amarga sinfonia da vida”. Doce e amargo são símbolos dos opostos, dos contraditórios, da felicidade e melancolia, etc.

A meu ver, a melancolia (característico também da música citada) não é necessariamente um amargo a ser evitado, mas um modo de perceber a existência, portanto, a vida. Significa olhar do modo como ela é, como ela se mostra e é construída, do modo como suas fantasias são elaboradas para dar sentido. Isso talvez assuste algumas pessoas, motivo pelo qual preferem iludirem-se.

O lema de que “a vida deve ser vivida e não pensada” é desonesto em si mesmo, por uma série de razões. Umas delas, é que este lema se coaduna com os padrões que definem como felicidade, como por exemplo, a necessidade de consumir e possuir: ser feliz é “ter”. Trata-se, portanto, de um especifico modo cultural de conceber a felicidade: o problema se coloca na universalização deste modo de ser feliz. Por isso, quem adota o lema como aforismo absoluto hesita refletir sobre outros aspectos da vida, que inclusive lhe dá sentido, como o sofrimento, a tristeza, a morte: “viver” passa a significar “fingir”, de modo que o “pensar” nestas condições incomoda.

Este é um tema sobre o qual a filosofia se debruçou em seus diversos desdobramentos: ora confessando um pessimismo diante da vida ou como um beco sem saída, a não ser o desespero. Encarar a vida e compreender suas contradições, seu doce e amargo, não deve ser compreendida como cair no “desespero”, de acordo com a crítica de Nietzsche à Schopenhauer, mas de perceber nas contradições, nos opostos, a possibilidade de perceber a vida em seus vários aspectos. Como diria Nietzsche, não existe felicidade, e sim momentos felizes; não somos felizes, “estamos felizes”. Por isso, Nietzche propunha a transmutação dos valores ocidentais, cuja característica era negar o corpo, a criatividade, a realidade e a potência humana, em favor de uma metafísica.

Até o mais sisudo ancorado na inabalável cátedra da razão e o mais sorridente nos palcos da comédia, já experimentaram, aqui e ali, uma sensação estranha e humana, que poderíamos chamar de melancolia. Nos termos do antropomorfismo teológico (seja de qual for à religião), as divindades também se entristecem e choram. Diria que, o ratio (razão) e o pathos (emoção) são aspectos de uma mesma existência, complementando-se, embora uma veja na outra sua oposição.

Até pouco tempo (e ainda há) havia uma moda na psicologia que consistia na classificação e universalização dos temperamentos, sendo aplicável a todos os seres humanos. Haveria, por exemplo, um tipo temperamental chamado “melancólico” (com o qual fui muitas vezes classificado), com tendências sentimentais e “depressivas”, como se fosse uma característica de um tipo de ser humano, em oposição a outros temperamentos. Este “coitado”, nestas condições, precisaria, no mínimo, se “orientar” nos manuais de auto-ajuda. Nesta enorme prateleira psicologizante e atomizante, bastava descobrir quem você é e talvez se iludir pelo que não é. Muito parecido com o horóscopo, que mesmo embaralhado pode fazer algum sentido, embora fantasioso. Pretendem fazer de uma formula a explicação de uma diversidade, do universo. A meu ver, perderam a oportunidade para explicar a diversidade na unidade: o quanto somos muitos, doce e amargo, felizes e melancólicos, portanto, contraditórios, tudo ao mesmo tempo. Por isso a vida pode ser entendida como uma doce e amarga sinfonia da vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário