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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Antes e depois de Kant: questões para a Teologia Contemporânea.

Este ensaio é um resumo de uma aula introdutória à Teologia Contemporânea, ministrada no primeiro semestre de 2011, no IETESP - Instituto de Educação Teológica no Estado de São Paulo. Me comprometi, a pedido de meus alunos, a redigir minhas "tagarelisses" e apresentá-los neste blog. Brevemente postarei os demais ensaios como complemento (pelo menos a teologia européia dos XIX e XX): a noção de religião em Schleiemacher, a teologia paradoxal de Kierkegaard, a dialética de Barth, a teologia da cultura de Tillich, a demitização de Bultmann, a teologia da história de Cullmann e a teologia da esperança de Moltmann. Espero que possa servir de base para outros debates.
Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, cujo pensamento contribuiu para o desenvolvimento da filosofia Iluminista no século XVII, é considerado o demolidor das estruturas dogmáticas da tradição cristã ao relegar a transcendência à esfera da experiência. Talvez, nenhum outro pensador influenciou tão profundamente os rumos da filosofia e teologia nos séculos XIX e XX. De certo modo, ainda é difícil escapar das amarras conceituais de sua filosofia, especialmente no Ocidente.

A filosofia kantiana procurava sistematizar e combinar elementos de duas grandes correntes filosóficas, o idealismo cartesiano (na qual os teólogos mais se identificavam) e o empirismo inglês desenvolvido por Francis Bacon (1561-1626), John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776), até então, correntes de pensamento incompatíveis e irreconciliáveis. De certa forma, há uma superação nesta combinação ou mais acertadamente, Kant uniu ambos pensamentos num centro. Kant concordava com os empiristas, ao dizer que todo nosso conhecimento do mundo exterior chega a nós através dos sentidos. Por outro lado, sustentava como os idealistas, que a própria mente contribui para nosso conhecimento da realidade. Entretanto, deve-se notar que para Kant, não é possível conhecer a realidade em si mesma, levando-o a construir um “limite para a razão”.

Desse modo, o sistema kantiano implicava numa rejeição a todo conhecimento metafísico, comum principalmente entre os idealistas ou aprioristas. Kant, por exemplo, destrona a teologia cristã ao demonstrar as contradições e os limites da mente humana na reivindicação de um conhecimento ontológico.

Kant seguia Hume ao criticar a filosofia metafísica (e a teologia) que acreditava estabelecer por meio de categorias do pensamento humano (tempo, espaço, substância) ideias religiosas de Deus, como liberdade e imortalidade. Este procedimento lhe parecia impossível, visto que a razão humana era finita, não podendo, portanto, alcançar o infinito. Sendo assim, as categorias do pensamento humano seriam válidas apenas para compreensão das coisas finitas, apenas para descrever nossas relações com o mundo. A proposta de transcender ao finito tornava-se problema para os metafísicos, logo aos teológos. A partir daí, não seria mais possível falar de “Deus” como antes, muito menos pela apropriação das categorias filosóficas metafisicas, criando, nos termos de Tillich, um “princípio de distanciamento”, isto é, um abismo instransponível entre o finito (natureza, homem) e o infinito (Deus, espirito), fato que suscitou à reação de alguns teólogos, como Friedrich Schleiermacher (1768-1834), ao reformular a noção de religião.

De acordo com o sistema kantiano, a nossa racionalidade organiza a forma de conhecer por dois processos: por um lado temos a capacidade de desenvolver pensamentos lógicos e abstratos, chamado por Kant de “razão pura”. Este campo de conhecimento está sujeito à verificação, a experimentação e a comprovação, como por exemplo, a matemática.

Por outro lado, parte da nossa racionalidade processa um tipo de conhecimento “prático” (chamado de "razão prática"), onde seria concebido, por exemplo, a moral, a religião, o sentimento. A consequência imediata, é que não se pode mais pensar em "Deus" em termos de causa ou substancia (inata) universal. Desse modo, a religião, até então tida como um elemento sobrenatural ou transcendente, reduz-se à esfera da experiência, submetida à uma lei moral, logo natural

Sendo assim, para Kant pensar é diferente de conhecer, cuja fonte está na experiência. De acordo com Kant, só podemos conhecer os fenômenos e não a coisa em si. Por exemplo: só podemos conhecer a idéia de liberdade, mas não a liberdade, visto que ela é abstrata. No caso da religião, só podemos concebe-la pela moral e não em sua essência, isto é, o finito não pode apreender "Deus" por suas categorias. Conhecemos apenas uma ideia de Deus cuja manifestação se daria na experiencia, numa lei universal chamada "moral".

A categoria de causalidade, por exemplo, descreve a interrelação entre experiências finitas. O tempo é a principal forma finita de transitoriedade, incapaz de ser fixado num momento. Se o fixamos, ele deixa de existir. Para Kant, estas categorias só podem ser utilizadas no domínio dos fenômenos, que são as coisas aparecendo no tempo e no espaço. É por isso que os conceitos de “Deus”, “liberdade” e “imortalidade” não podem ser empregados nessa estrutura racional, mas deve ser relegada à estrutura “prática”. Embora esses conceitos não fossem demonstráveis, davam coerência ao pensamento e comportamento éticos.

Ainda é preciso esclarecer que Kant não configura o que atualmente se conhece por "ateu"; pelo contrário, era de tradição protestante, além de um exímio filósofo da religião. A ideia de ateismo tal qual concebemos, não estava presente nos filósofos dos séculos XVI à XVII, nem mesmo, nos mais implacáveis com a religião. Sem dúvida, os valores de suas épocas eram moldadas por questões religiosas, tornando-se, portanto, o centro de suas preocupações. Certamente, denunciaram o que chamavam de "superstições", "mitos", "dogmas", monopólio institucional, etc., mas, ainda assim, nutriam expectativas positivas por uma ideia de religião natural ou religião moral, regidas por uma razão em busca da "verdade". Podemos encontrar, sim, noções como Deísmo, Anti-sobrenaturalismo, entre outros; mas não Ateísmo, como descrevem alguns equivocadamente. A noção de "ateu", por sua vez, foi construída num novo contexto, onde o desenvolvimento científico construiria uma nova "imagem do mundo", colocando em cheque, inclusive a própria Filosofia. 

Ainda assim, a noção de "ateu" não me parece tão "pura" tal como se atríbui ou como pretende quem assim se identifica, e, aliás, diriam os antropológos, nenhuma construção conceitual é "pura". Todas elas são frutos de determinado contexto histórico, cultural, etc. Permita-me um exemplo: conheci alguns colegas (fisícos, sociólogos, antropólogos, psicólogos, entre outros) que se identificam como "ateus", mas no fim das contas, percebi que suas "implicancias", era na verdade, com uma ideia que nutriam do Cristianismo (críticas, aliás, pertinentes, mas de uma só perspectiva). Declarar-se "ateu" significava para este meus colegas, rejeitar, demarcar diferença ou qualquer "identidade" com a tradição cristã. Entretanto, os mesmos, paradoxalmente, declaravam-se "budistas"; identificavam-se com os cultos afros sob pretexto de que era cultural (e não deixa de ser); ou com a espiritualidade oriental. Os mais radicais, sem perceber, elegiam como "religião", suas próprias convicções cientificas ou políticas (marxistas, por exemplo), o que nos leva à ideia de "crença" que tanto denunciavam. Em muitas de nossas conversas, eu me sentia mais "ateu" que eles próprios (talvez pelo meu "desencanto" com a teologia dogmática). Todos, de algum modo, acreditavam em alguma "utopia", como bem classificavam crenças e denunciavam os outros. Parafraseando Bruno Latour, para quem "jamais fomos modernos", diria que "jamais fomos ateus".

Portanto, como bem demonstrou Talal Asad acerca da noção de "religião" universalizada no Ocidente (noção absorvida pelo debate das ciências sociais), a noção de "ateísmo" também provém desse embricamento: trata-se de uma construção histórica e cultural, não contendo nada de "puro", o quanto se pretende atribuir. Esse tipo de preconceito e anacronismo histórico é que nos afasta de uma compreensão dos séculos XVII e XVIII, pois, insistimos em colocar sobre eles ou na "boca" deles, nossos dilemas e conceitos atuais.             

De volta ao assunto (se é que havia tergiversado): desse modo, nosso empreendimento para compreender a teologia moderna, cujo precursor foi Schleiermacher, só será possível, se estivermos dispostos a compreender os valores e embates filosóficos de seu tempo. Caso contrário, apenas formularemos críticas infundadas e descontextualizadas, a exemplo dos teólogos fundamentalistas e dogmáticos, congelados na inabilidade do diálogo. Não se trata de defendê-los ou concordar com suas ideias, mas compreender a dinâmica pela qual a produção teológica esteve envolvida e condicionada. Somente a partir daí, teriamos condições de confirmá-los ou refutá-los, pensando em nossas questões atuais.

11 comentários:

  1. Caro Teles, muito bom ter você aqui, pois é com enorme satisfação que com todas as palavras que posso achar nesse momento, digo: que feliz estou em poder ser participante deste blog, feliz minha alma está, pois acrescentarei mais conhecimento a minha pessoa a partir deste momento. Apesar de não ser digno de participar do mesmo, me considero feliz por te-lo como amigo a qual estimo muito. Saliento que tu apesar de auto-didata, prossegue em humildade e mansidão.. Um forte Abraço.
    De Seu Aprendiz. Robinson Ribeiro.

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  2. Caro Teles, permita-me aqui expressar algo sobre o tema discorrido em seu blog.

    Para Kant no conhecimento o objeto é que é determinado pelo sujeito. Sujeito e objeto são, portanto para Kant, termos relacionais, que só podem ser considerados como parte da relação de conhecimento, e não autonomamente.
    Só há objeto para o sujeito, só há sujeito se este que se dirige ao objeto, visa apreendê-lo.

    A sensibilidade nos fornece os dados da experiência (o múltiplo), a imaginação completa estes dados e os unifica, e o entendimento lhes dá unidade conceitual, permitindo-nos pensá-los. O conhecimento resulta da contribuição desses elementos.

    E concordo plenamente com o final de seu discurso, pois muitos de nós formamos uma ideologia em nossas mentes acerca de varios assuntos, com a bagagem que nos é exposta nesse momento, ou seja, hoje. Sem ao menos, verificar-mos a idéia de quem escreveu ou pensou o assunto em discusão. Concordo também que antes de criticar, ou dar uma opinião sobre determinado assunto, devemos antes de tudo, procurar as fontes iniciais, para que não venhamos, (usando seu raciocínio) colocar palavras na boca dos pensadores da antiguidade, sem eles ao menos terem pensando em tal hipótese. Fico Por aqui.

    Forte abraço Professor Teles e perdo-me se falei besteira..
    È um risco comentar algo, no blog de um AUTO-DITADA.

    Te Mais.

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  3. Meu caro amigo, obrigado pelo comentário... Vc foi mais claro que o próprio texto... Abç

    Teles

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  4. Querido Teles, desculpe-me, mas somente agora pude ler com bastante atenção ao seu ensaio. Fico muito feliz de ter um a referência, daquelas "rapidinhas", que os alunos costumam pedir em sala de aula. Tipo: "professor onde leio um resumo legal sobre este assunto?". Gostei! Agora posso indicar sem temor de vê-los mal informados. Teles, quanto ao conteúdo gostei , principalemente, de você pontuar as questões acerca do ateísmo, pois costumamos a ouvir as noções construidas em nosso tempo, com as categorias atuais, e lançando o rótulo nos filósofos ou teólogos dos séculos passados, quando na verdade, tais questões nem se quer fizeram parte do imaginário deles. Perfeita a noção que você dá de "centro", ao projeto kantiano, na tentativa dele (KAnt), de realizar pontes entre o empirismo inglês e o racionalismo francês. PArabéns amigo!!

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  5. Caro Alexander, obrigado pelas considerações... é sempre bom ter um leitor como vc para compartilhar ideias...

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  6. Professor Teles
    Seu blog esta lindo e estou seguindo ele, olha estou maravilhado do material apresentado na aula de segunda feira 17/10/11, foi simplesmente fantástico, continue assim estamos aprendendo bastante.
    DEUS abençoe sua vida e seus projetos
    Abraços amigão.

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  7. Valeu Marcos... Seja sempre bem vindo.

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  8. Esta ideia de idealismo tanto o transcedental quanto o dogmático é realmente dificil de ser transportada para a atualidade. o periodo em que Kante situa sua existencia não difere do nosso, pois nestes dois periodos a teologia versa de maneira que seus pensadores muitas vezes entram em conflito mais na verdade tanto o ponto de partida quanto o de chegada são os mesmos. Sendo assim o ateísmo e puramente um ponto de fuga para aqueles que assim se auto denominam.

    Antonildo

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    1. Vc tem razão. Obrigado pela participação.

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  9. Caro Edilson
    Um livro bom de leitura é: Kant e Swedenborg.

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  10. Obrigado pela dica Johnny.. vou procurar este livro.

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