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domingo, 17 de julho de 2011

Quem guarda os portões da fábrica?


QUEM GUARDA OS PORTÕES DA FABRICA?
Transição nas condições de trabalho a partir de a Fábrica de Legião Urbana.

Deve haver algum lugar onde o mais forte
Não consegue escravizar quem não te chance
(Renato Russo, a Fábrica, 1986).

RESUMO:

Este artigo é um resumo de um trabalho desenvolvido para a disciplina Sociologia IV na Fundação Escola de Sociologia e Politica de São Paulo (FESP-SP), no primeiro semestre de 2011. Procurei discutir os processos de transição das condições de trabalho no contexto dos anos 80, tomando como base a análise da música Fábrica de 1986, da banda brasiliense, Legião Urbana, a fim de contextualizar esta transição
  
1. Conceituação

Ao considerarmos um conjunto de transformações sociais, devemo-nos necessariamente perguntar pelos processos de “transição”, de modo a tornar compreensível a mudança de um estado vigente de coisas para outro, bem como suas implicações.

A noção de transição pode evocar uma série de dificuldades no que se refere aos critérios de classificação ou definição de mudanças no estado de coisas. Faço uso desta noção fundamentando-me nas observações de Victor Turner (1974) ao lidar com a questão das transformações sociais nas sociedades industriais ou complexas.

As relações de trabalho foram por muito tempo percebido dentro de uma estrutura estática e imutável, privilegiando as instituições e suas tecnologias em detrimento dos agentes sociais. Nesse sentido, a noção de transição buscava dar conta de grandes processos estruturais, como “modernidade” x “pós-modernidade”, “tylorismo” x “fordismo”, etc. (HARVEY, 2001, p. 163). Nestes modelos estruturais, onde pouco se percebe a ação dos indivíduos, coube uma classificação para os tais, a saber, a ideia de que eram “alienados” e alheios a estes processos. Entretanto, neste trabalho, busco inverter esta percepção, lançando um olhar sobre os atores sociais.

Turner desenvolveu a noção de transição ao observar os ritos de passagem em suas pesquisas etnográficas (1979). Turner percebeu que os “ritos” era a irrupção da vida rotineira, que permitia aos atores sociais conduzir alterações nas relações estabelecidas. Desse modo, o rito instaura uma “teatralização” ou “dramatização” daquilo que é continuo numa sociedade, negando-a e confrontando-a. Trata-se de um rompimento “dramatizado” com as formas tradicionais de representação de mundo, se lembrarmos de Durkheim.

Nesse sentido, os “ritos de passagem”, segundo Turner, marcam a passagem de um estado social para o outro, de modo que, estas transições entre estados ou posições específicas, por revelar contradições e barreiras a um estado de coisas vigentes, e pode assumir características como “violência” e “bizarrice”. Ou seja: não faz sentido, pois não está configurado na ordem lógica dos significados simbólicos, e por sua vez, pode se expressar fisicamente como negação da regularidade social vigente.

De acordo com Turner, o ser transicional, que deixou de fazer parte de um estado, ainda não passou completamente para a nova condição, e neste momento liminar ele não se situa em nenhuma forma reconhecida pela sociedade, e, portanto, não seria ninguém ou nada. Neste estado de transição, ele seria exatamente aquilo que a sociedade vigente não quer e não pode expressar, isto é, sua “contradição”. Turner chamou isso de liminaridade, pois neste “momento” haveria um conjunto de transformações que a perspectiva “institucional” não percebe.

Em meados dos anos de 1970, Turner se vê na necessidade de avançar o conceito de liminaridade para liminóide, na tentativa de analisar a sociedade no contexto de industrialização. Para isso, entendeu que o teatro seria o melhor modelo de conduzir um estudo sobre a performance social, pois o drama é conduzido pelos atores. É nesse sentido que farei uso da noção de transição.

2. Contextualização

As transformações sociais no Brasil no contexto dos anos 70 e 80, como as greves dos operários, as manifestações politicas e populares no processo de redemocratização, o surgimento de movimentos sindicais, entre outros, podem ser pensadas como dramas e ações performáticas, ou como “ritos sociais” que rompem com um conjunto de valores vigentes.

Neste caso especifico, destacarei a transição nas relações de trabalho na década de 1980 a partir dos atores sociais conscientes dos “riscos rituais” a que se submeteram, cujo “palco” foi o chamado “chão-de-fábrica”. Para isso, faço uma breve analise dos elementos da música Fábrica de 1986, de Legião Urbana, como meio de perceber o espírito de uma época. Se para Turner drama lembra arte ou teatro, ou simplesmente “atores em ação”; a música, por sua vez, serve-me de discurso ou “expressão sentimental” de um determinado contexto, capaz de tornar-se “texto” de uma ação.

Surgida na primeira metade dos anos 80, a banda brasiliense Legião Urbana liderada por Renato Manfredine Jr., ou Renato Russo (como ficou conhecido artisticamente), autor letras poéticas e politizadas, refletia o sentimento e pensamento de uma geração pós-regime militar e censura instalada no Brasil. Ao contrário da expressão artística anterior (como Chico Buarque, Caetano Veloso, entre outros), as bandas dos anos 80, caracterizada por uma juventude herdeira da sonhada liberdade de expressão, puderam expressar suas opiniões “abertamente”, refletindo questões sociais a partir de suas produções culturais, denunciando, criticando e ironizando. É o caso do Legião Urbana.

Desse modo, este ensaio pretende refletir sobre as condições de trabalho no contexto dos anos 80, tido por alguns como “a década perdida”, no entanto, compreendida por outros como década de transição político-social e tecnológica nas relações de trabalho. A partir dos elementos desta transição, busco identificar o perfil do trabalhador que surge nos 80 e de que modo ele toma consciência das relações de trabalho para além da “alienação” que lhe era atribuída. Tomarei como ponto de partida o personagem da música a Fábrica de 1986 de Renato Russo, na tentativa de mapear o contexto e condições de trabalho na referida transição. Entretanto, não se trata de uma “história” desse novo operariado ou do movimento sindical, mas de compreender o espírito de uma época (em transição) refletido na letra desta música, isto é, os sentimentos e leitura de mundo sob o qual estavam condicionados, possibilitando-nos um olhar sobre as transformações das relações de trabalho.

3. Comparação

Como problema inicial, podemos fazer a seguinte observação: se por um lado, no Brasil, esta década (1980) é marcada por transições políticas, econômicas e sociais, como a redemocratização, o surgimento de um novo operariado e novas tecnologias industriais; por outro, pode-se notar que na tentativa de explicar estas transformações – particularmente, as relações de trabalho – desenvolveu-se uma sólida literatura sociológica, que revisaria as reflexões anteriores sobre as relações de trabalho (WEFFORT, 1978; ANTUNES, 1986, 1989, 1995, 1998). Refiro-me ao fato destes intelectuais buscarem construir uma nova leitura das relações de trabalho para além de uma simples “história das lutas operárias” redigidas até então pelo modelo ideológico-politico exposta por seus principais expoentes, geralmente marxistas engajados. Sendo assim, na falta de uma história social do trabalho ou de uma Sociologia das Organizações que pensasse a empresa industrial, os sindicatos ou mesmo os movimentos sociais emergidos do chão-de-fábrica, os cientistas sociais, aos poucos, consolidaram uma reflexão teórica mais ampla acerca do trabalho. Como afirmam Sader e Paoli (1986, p. 60), “os pesquisadores das ciências sociais dos anos 80 se viram diante de um momento politico marcado por movimentos vários de lutas contra opressões diversas [...], cuja promessa tirava de cena os atributos de “alienação” e heteronomia tradicionalmente atribuído aos trabalhadores”.

Desse modo, tentarei fazer uma análise a partir da música a Fábrica, de 1986. Nela, Renato Russo, dá voz a um personagem, um jovem operário que entoa um “hino” contra a exploração que permeia as relações de trabalho.

Na primeira estrofe da música Fábrica, o jovem operário diz:

Nosso dia vai chegar
teremos nossa vez
não é pedir demais
quero justiça

Podemos inferir que o personagem aponta para um processo de emancipação característico das lutas e resistências dos operários nas emblemáticas greves iniciadas em 1978, que por sua vez, marcaria o ressurgimento do movimento sindical que a literatura sociológica consagraria sob o termo “novo sindicalismo”.

O personagem da música critica a instabilidade da situação do trabalhador, os reflexos das ações corrosiva da opressão, o desemprego e o resultado da exploração da natureza, expresso pela frase:

Quero trabalhar em paz
não é muito o que lhe peço
eu quero trabalho honesto
em vez de escravidão

A frase “não é muito o que lhe peço” aponta para as reivindicações e “negociações” frente aos patrões, ao perceberem a lesão de seus direitos básicos.

Para Ricardo Antunes, o movimento grevista dos metalúrgicos que repercutiram no Brasil eram ações claras de lutas contra a superexploração do trabalho, além de uma reedição das greves anterior a 1964 (1995, p. 11-12). Tratava-se de recuperar o sentido da “representação” sindical. Argumentando sobre um quadro geral desta transição, Leôncio M. Rodrigues, atenta para três fatores fundamentais na configuração destas: 1) A estrutura sindical vigente, pois do contrário, o movimento sindical teria inúmeras dificuldades a mais em sua reorganização na década de 1970; 2) a ascensão de novas lideranças sindicais que, como em sua maioria não pertenceriam ao esquema PCB-PTB, não foi barrada pelos militares e 3) A mudança na atuação dos setores progressistas da Igreja que, além dos movimentos, aproximaram-se também das novas lideranças sindicais. (RODRIGUES, Apud, SILVA, 2008, p. 75).

Desse modo, não é exagero afirmar que estas transformações originaram-se nos chamados “chão-de-fábrica” antes mesmo de uma institucionalização representativa, pois como se sabe, o movimento sindical de então pouco “representava”, sendo inclusive tachados de “pelegos” devido sua submissão ao Estado, e por sua vez, aos interesses dos patrões (SILVA, 2008). Tratava-se de uma ruptura com o sindicalismo anterior e cujo discurso procurava se diferenciar, inclusive criticando o imposto sindical que tornava o sindicato “refém” do Estado e seus interesses (SANTANA, 1999).

4. Finalização

Uma frase enigmática da música é colocada como pergunta: “Quem guarda os portões da fábrica?”. Por certo, faz uma referencia ao fato dos trabalhares serem “escoltados” e vigiados da porta das fábricas até o portão, inclusive, nas idas ao banheiro, numa espécie de panóptico focaultiano. Além disso, pode interpretado como uma referencia as diversas condições de trabalho. Outra frase enigmática é a metáfora “céu já foi azul, mas agora é cinza”, que aponta para as condições ecológicas colocadas pela industrialização.

Em outra música, chamada Música de Trabalho de 1996, Renato Russo retoma a temática e estabelece um diálogo explícito com a Fábrica, expondo a falta de garantias sociais, sobretudo emprego, vivenciadas pelos jovens. Criticava mais uma vez a exploração e os danos causados na subjetividade pela opressão político-econômica.


Referências Bibliográficas

ANTUNES, Ricardo (1986). A Rebeldia do trabalho. São Paulo. Editora Unicamp.
________________ (1989). O que é sindicalismo. 16ª ed. São Paulo: Brasiliense.
________________ (1995). O novo sindicalismo no Brasil. 2ª ed. rev. e ampl. Campinas, SP.

________________ (1998). Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortez.

HARVEY, David (2001). Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola.

SADER, E. & PAOLI, M.C (1986). “Sobre ‘classes populares’ no Pensamento Sociológico Brasileiro”. In: A aventura antropológica, CARDOSO, Ruth (Org.). Rio de Janeiro, Paz e Terra.

SANTANA, Marco Aurélio. Entre a ruptura e a continuidade: visões da história do movimento sindical brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 14, n. 41. 1999.

SILVA, Stanley Plácido da Rosa (2008). Entre a vanguarda e o espontaneísmo: embates pela hegemonia do “novo sindicalismo” no Brasil. Revista Urutágua, n. 16, Maringá, Paraná.

TURNER, Victor (1979). Dramatic ritual/ritual drama: performative and reflexive anthropology.

Um comentário:

  1. Eu já havia lido este seu trabalho, vc conceituou muito bem as décadas, e fez um interessante comparativo a letra da música, que com certeza representa bem a década de 80, época em que a letra foi escrita.

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