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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Fluxos e devires: os mil platôs de Deleuze e Guatarri

"1933 – Micropolítica e segmentaridade", in: Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (1980). DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Félix. Editora 34. São Paulo.

Os “conceitos não são dados prontos... é preciso inventar” (DELEUZE, 1991). Com este enunciado, é possível perceber as pretensões que Deleuze e Guatarri esperavam de seu trabalho, e Mil Platôs se propõe a isso.

No que se refere a este capítulo, é preciso destacar, a data “1933” – que a primeira vista pode parecer uma simples referência histórica – pretende, na verdade, ilustrar como “acontecimento”, uma série de outros acontecimentos, como linhas que perpassam uma pelas outras, e não fixar-se numa história cronológica. Em vez de se preocupar com “história” – no sentido linear – Mil Platôs, destaca-se por transformar acontecimentos históricos em mapas, leituras de espaços, modo pelos quais pode ser lido um conjunto de linhas funcionando ao mesmo tempo. Desse modo, o texto transita entre períodos diferentes da história, ressaltando suas linhas de fuga.

Nesse sentido, é possível fazer um deslocamento para além do “acontecimentos isolado” e construir conceitos para análise das linhas, dos espaços, seus devires, seus fluxos. É a partir deste pressuposto que Deleuze e Guatarri buscam problematizar a noção de segmentaridade, permitindo-lhes analisar os diferentes agenciamentos nas sociedades complexas, entre elas, as máquinas do Estado.

Começam por exemplo discutindo os modos de segmentação binária, circular e linear, sob a qual se encontra organizada as sociedades, tanto “primitivas” quanto as “modernas”; e não apenas isso, como também é possível verificar os mesmos elementos de poder em ambas as sociedades. Somos segmentarizados por todos os lados: rico x pobre, homem x mulher, criança x adulto (binário); dependemos cada vez mais dos círculos concêntricos que nos compõem, como por exemplo, nos situarmos em círculos espaciais como a "cidade", o "bairro", a "vila", a "casa" etc.; além disso, vivemos em constantes processos lineares: a família, a escola, a faculdade, etc. Mal saímos de processo e já entramos em outro. É isso que Deleuze e Guatarri chamam de linhas em fluxos, pois elas se entrelaçam. A ideia de que nós, "modernos", somos diferentes dos "primitivos", não faz sentido. Somos tão segmentarizados quanto as sociedades primitivas.  

Desse modo, buscam problematizar a distinção entre o que seria uma “segmentaridade” e “centralização”; a primeira diz respeito à flexibilidade dos “primitivos” em relação a não centralização de poder num aparelho de Estado; e, a segunda, diz respeito ao sistema politico moderno, tidos como unificados e unificantes.

Entretanto, conforme Deleuze e Guatarri, esta clássica oposição binária não parece se sustentar, levando-os a sugerir que a vida moderna, ao contrário do que se atribui, mas destituiu a segmentaridade de modo de existir, mas a endureceu singularmente (p. 85-86). Nesse sentido, em vez de opor sementariadade e centralizado, seria preciso distinguir dois tipos de segmentaridade; uma flexível e outra dura.

A diferença básica entre a segmentardade flexível (dos “primitivos”) e endurecida (dos “modernos”), diz respeito ao fato de que a primeira não converge o poder a um único centro, havendo, portanto, multiplicidade de centros (de poder). Por outro lado, na segunda os centros convergiriam para um mesmo ponto, ou “todos os buracos negros caem num ponto de acumulação” (p. 87). Em suma, na flexível, a binaridade resulta de multiplicidade com “N” dimensões, fazendo lembrar a leitura que o perspectivismo faz das atividades do xamã e do guerreiro (VIVEIROS DE CASTRO, 2000). Ou seja, a multiplicidade de perspectivas não permitiria a centralização do poder, por isso, parte da literatura – equivocadamente – tendia a interpretar as atividades destas sociedades como sendo “sem Estado”. Como bem demonstrou Pierre Clastres (2004), não se tratava de “sem Estado”, mas “contra o Estado”. É nesse sentido que Deleuze e Guatarri destacam a ação do xamã ao traçar todas as linhas destes centros de poder, sem, no entanto tornar o poder absoluto (p. 87). Quanto às sociedades com segmentaridade endurecidas, haveria maquinas de ressonância e uma dependência do Estado como seu centro. Ou seja, as rostificações ou ressonâncias do centro estendido pelo poder do pai, do professor primário, do coronel, do patrão, etc., convergiriam – como também notou Foucault (2006) – para a concentricidade do Estado.

Entretanto, segundo Deleuze e Guatarri, assim como não basta distinguir “segmentário” e “centralizado”, tão pouco seria suficiente distinguir dois tipos de “segmentaridade”, pois é possível encontrar nas sociedades primitivas “núcleos de dureza” que antecipam o Estado; ao passo que, nas sociedades modernas encontra-se também uma “reflexibilidade” coexistindo com segmentos duros. Além disso, toda sociedade (ou indivíduo) são atravessadas pelas duas segmentaridades ao mesmo tempo: uma molar e outra molecular (p. 90). Elas coexistem e perpassam uma pela outra, de modo que são concebidas como fluxos. É desse modo que Deleuze e Guatarri podem dizer: “tudo é político” (p. 90), sendo ela ao mesmo tempo macropolítica (molar) e micro-política (molecular).

Sendo assim, a noção de fluxo permite problematizar a binarização dos elementos do poder. Nesse sentido, “cada centro de poder é igualmente molecular” (p. 105), seja o da Igreja, do Estado, etc. Eles se exercem por “micros tecidos”.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CLASTRES, Pierri (2004). Arqueologia da violência: pesquisas de antropologia política. São Paulo. Cosac & Naify

DELEUZE, Gilles (1991). “Mil platôs não formam uma montanha, eles abrem mil caminhos filosóficos”. In: Dossie Deleuze. Entrevista com Gilles Deleuze.

FOUCAULT, Michel (2006). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal.

VIVEIROS DE CASTRO, (2000). “Perspectivismo e multiculralismo na américa indigena”. In: A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. Cosac & Naify.

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