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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ARQUEOLOGIA E ESTRUTURAS DAS PARÁBOLAS: Um sobrevôo sobre os métodos e pesquisas.

Obs: Este breve ensaio consiste de um resumo de minha aula para disciplina Teologia do Novo Testamento (2011), ministrado no Instituto de Educação Teológica no Estado de São Paulo - IETESP. Agradeço aos meus alunos pela sugestão de transformá-lo num artigo. Breve virão outros. 

RESUMO

Este ensaio não se propõe à exegese das parábolas ou a uma análise quantitativa delas; antes, interessa-nos realizar breves apontamentos conceituais sob as quais estiveram submetidos os principais programas de pesquisas. Buscamos entrelaçar o conceito de Reino de Deus e com a estrutura das parábolas, tendo como pano de fundo as pesquisas sobre o ambiente judeu de Jesus.

Palavras-Chave:
Parábolas, Reino de Deus, Contexto vivencial, Jesus Histórico.
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Introdução

Uma diversidade de interpretações pode ser catalogada à cerca dos enunciados atribuídos a Jesus, e ainda que as pesquisas tenham sido abundantes e exaustivas, seus resultados nem sempre foram sinônimos de esgotamento da questão. Estas pesquisas foram fomentadas, sem dúvida, pelo famoso Programa de Pesquisa Histórico-Crítico da Escritura (1) e pelas pesquisas do Jesus Histórico (2), desenvolvido a partir dos séculos XVIII. Tal busca, implicava em distinguir o Jesus da fé, que teria sido uma elaboração dos dogmas e tradições, do Jesus da história, um típico judeu do primeiro século. Rochus Zuurmond, afirma com razão que entre os eruditos e as produções acadêmicas mais sérias, mesmo os mais céticos, “hoje em dia não se discute mais se Jesus realmente existiu” (1998, p. 18); entretanto, permanece a questão: o que ele teria dito, de fato? É possível reconstituir a personalidade ou momentos históricos de modo satisfatório? Em outras palavras: seria possível uma arqueologia-histórico-filológica da pessoa de Jesus? Ou, no caso das parábolas, o que ele de fato quis dizer e o que seus ouvintes de fato entenderam? Trata-se, sem dúvida, de múltiplas tarefas a fim de chegar a resultados mínimos.

Conceituação: Basileia e a Parabolé

O recorte que nos interessa aqui – pelo espaço e limitada competência técnica – voltasse-se a um conjunto de enunciados conhecidos como parábolas, que por sua vez, foram também submetidas aos mais variados métodos de pesquisas a fim de verificar a autenticidades dos ditos que provinham direto de Jesus. Seria isso possível? Joachim Jeremias, por exemplo, figura entre os eruditos que considera possível – se não de modo satisfatório – chegar ao que chama de ipsissima vox de Jesus, isto é, o “sentido original” das formas de discursos que teriam sido proferidos por Jesus (1986, p. 15.). Apoiado pelo método crítico-histórico e método comparativo dos estudos das religiões, Jeremias dedicou-se à descrever um conjunto de enunciados onde apareceriam as “características da dicção” de Jesus, sua ipsissima vox, cujo estilo e linguagem não encontraria paralelo no ambiente judeu de Jesus (JEREMIAS, 1977, p. 51). Entre estas novidades estilístico-linguísticas encontra-se às parábolas, sem paralelo na literatura rabínica da época.

O que é parábola no contexto neotestamentário? O teólogo norte-americano, George Ladd define parábola como “uma estória extraída da vida diária com a finalidade de comunicar uma verdade de cunho moral ou religioso” (2001, p. 88). Esta definição aproxima-se de Jeremias para quem as parábolas, logo cedo na história da hermenêutica sofreram “abusos” ao serem relegadas ao campo das alegorias. De acordo com Jeremias, tirá-las do contexto diário da palestina e enquadra-las nas categorias de retórica grega teria sido o problema destas interpretações alegorizantes (JEREMIAS, 1986, p. 13). Desse modo, Jeremias afirma que “Jesus de fato emprega metáforas correntes, na sua maioria procedente do Antigo Testamento e que estavam então na boca de todos, mas ele nunca compôs alegorias. As suas parábolas nos conduzem antes ao coração pulsante da vida do dia-a-dia” (JEREMIAS, 1977, p. 52).

Sendo assim, tal método propõe que os sentidos das parábolas devem ser buscados no contexto vivencial contemporâneos de Jesus. Por conseguinte, as parábolas não são um conjunto de enunciados isolados em si mesmo, mas seus sentidos só são derivados do conteúdo da pregação de Jesus, num determinado contexto histórico. Sendo assim, a interpretação alegórica, ao buscar significados ocultos por trás das parábolas, não levaria em conta tal contexto.

Além disso, é consenso entre a maioria dos eruditos que o cerne da pregação de Jesus, tal como a tradição dos evangelhos apresenta, perpassa pelo conceito de Reino de Deus. Rudolf Bultmann, um dos maiores especialistas do Novo Testamento, por exemplo, afirma que “o Reino de Deus constitui o núcleo da pregação de Jesus Cristo” (2003, p. 11); Günther Bornkamm, um discípulo de Bultmann, também é da mesma opinião: “O Reino de Deus está próximo! Este é o centro da mensagem de Jesus” (1976, p. 60); Leonhard Goppelt afirma que a “a atividade de Jesus gira em torno de um conceito fascinante. Tudo se relaciona com ele e tudo provém dele. Este centro é a basiléia tou theou, o Reino de Deus” (2003, p. 80); Geza Vermès, um especialista em literatura judaica e nos manuscritos antigos, afirma que “o ensinamento de Jesus sobre o Reino de Deus é de modo geral considerado o cerne de sua doutrina” (1996, p. 45). Embora as abordagens destes eruditos sejam dispares entre si no que concerne ao Jesus Histórico, segue-se o fato de que concordam quanto ao que teria sido o cerne de sua pregação, seja ou não atribuída pela redação da tradição sinóptica. Falta-me, entretanto, competência técnica para ir além destas questões.

A redação que os sinópticos fazem dos ditos de Jesus dão conta de que as parábolas têm por objetivo ilustrar sua pregação a cerca do Reino de Deus: “o reino de Deus é semelhante a...”. Ainda de acordo com Jeremias (1986), os termos machal (hebraico) e mathla (aramaico) são utilizados no judaísmo tardio para designar todo um conjunto de linguagem (figuras, fábulas, provérbios, símbolos, etc), entre as quais o termo grego parabolé teria uma equivalência próxima. Neste sentido, parabolé significa “por ao lado de”, com o sentido de comparar, a fim de servir especificamente como ilustração de algum ensino. A comparação assim provida, pois, torna-se um instrumento didático.

Estrutura apocalíptica das parábolas

Afinal de contas, em que contexto deve ser buscado o “sentido original” das parábolas, tal como propõe Jeremias? Jeremias atribui a Adolf Jülicher (1910) o mérito de ter superado à interpretação alegórica e ter estabelecido métodos mais adequados para a interpretação das parábolas. Entretanto, Jeremias procura ir além de Jülicher ao propor que o lugar decisivo para interpretar as parábolas deve ser buscado nas condições e situações da vida dos tempos de Jesus (1986, p. 14). Para este autor, destacar as características dos ditos de Jesus implica em singularizar sua linguagem e estilo, sem paralelos naquele contexto; além disso, trata-se de verificar tais características de modo mais exato na língua materna de Jesus, isto é, no dialeto galileu do aramaico ocidental (1977, p. 16-17). Diferente do vocabulário geral de outras regiões da Palestina, o dialeto de galileu de Jesus conteria as singularidades e novidades no ambiente judeu, sendo as parábolas uma delas. Conforme destaca Ladd, “Jeremias vai longe demais ao assumir com sua pressuposição principal que o sentido original das parábolas somente pode ser recuperado em termos do significado que tiveram para os ouvintes judaicos de Jesus” (LADD, 2001, p. 88). Ladd, por sua vez, sugere que o sitz im leben, isto é, o contexto vivencial das parábolas devem ser buscadas no ensino de Jesus, e não no judaísmo (p. 88). Ladd teme que a metodologia de Jeremias limite a originalidade de Jesus em relação ao judaísmo da época; entretanto, o que Ladd critica é justamente o que Jeremias procura destacar: que a ipsissima vox de Jesus é singular e original naquele contexto e transcende a concepção judaica. Ao que parece, Jeremias tenta em sua obra associar autenticidade dos ditos de Jesus (ou atribuídos a ele) transmitidos pela tradição sinóptica com a originalidade de Jesus em relação ao seu contexto vivencial. Logo, a crítica de Ladd, não me parece justa.

Outro problema que se coloca, diz respeito ao conceito de Reino de Deus. A maioria dos eruditos é da opinião de que a pregação de Jesus deve ser compreendida como pertencente à estrutura apocalíptica da época, o que implica numa concepção escatológica do Reino de Deus (CHARLES DODD, 1977; JOACHIM JEREMIAS, 1977; WERNER GEORG KUMMEL, 1982; GEORGE LADD, 2001; RUDOLF BULTMANN, 2003; LEONHARD GOPPELT, 2003; OSCAR CULLMANN, 2003). A exegese das parábolas devem necessariamente levar em conta o conceito de Reino de Deus concebido por Jesus. Desse modo, as parábolas demonstram a vinda presente do Reino e a consumação futura; tal estrutura é mais presente em Jeremias, Cullmann, Goppelt e Ladd, interpretada como uma História da Salvação

Esta estrutura escatológica colocaria em tensão histórica duas eras: a Era Presente, entendida como sendo dominada por poderes malignos e a Era Vindoura, que embora tenha irrompido na história no meio da presente era por meio da atividade de Jesus, aguarda sua consumação futura. Este dualismo escatológico é típico da literatura apocalíptica e segundo estes autores, trata-se também do conceito que Jesus tinha do Reino de Deus, segundo a redação dos sinópticos. Desse modo, as parábolas, segundo esta perspectiva, seria uma ilustração dessa estrutura histórica, da iminente irrupção da basiléia, do Reino: elas ilustram os “mistérios do Reino”.

Jeremias ainda distingue grupos de parábolas, entre elas, as chamadas parábolas de crise, cujo conteúdo conteria uma expectativa iminente do juízo divino, tal como a literatura apocalíptica. Elas concebem os eventos históricos como elementos da ultima hora, prenúncios dos últimos dias, conclamando seus destinatários a penitencia frente ao juízo iminente: a catástrofe virá tão repentinamente como o ladrão noturno, como um noivo que aparece a meia noite, como o senhor que volta altas horas da festa, como o senhor que volta da longa viagem.

Notas de rodapé:

1) Tal programa, fruto da razão iluminista, consiste basicamente em interpretar a Bíblia como um conjunto de documentos históricos do passado, não mais como pertinente ao presente, tal como havia realizado à dogmática.

2) Estas pesquisas, por sua vez, tentaram reconstituir a figura histórica de Jesus, que havia sido submergido à interpretação dogmática ou pela tradição cristã. Trata-se de distinguir o Jesus da fé, revestido de explicações teológicas e mitológicas; do Jesus da História.


REFERENCIAS

BORNKAMM, Günther (1976). Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes.
BULTMANN, Rudolf (2003). Jesus Cristo e a Mitologia. São Paulo. 2ª ed. Novo Século.
CULLMANN, Oscar (2003). Cristo e o Tempo: Tempo e História no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Custom.
DODD, Charles Harold (1977). A Interpretação do Quatro Evangelho. São Paulo: Paulinas.
GOPPELT, Leonhard (2003). Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica.
JEREMIAS, Joachim (1977). Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas.
____________ (1986). As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulus.
LADD, George Eldon (2001). Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos.
KÜMMEL, Werner Georg (1982). Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas.
VÈRMES, Geza (1996). Jesus e o Mundo do Judaísmo. São Paulo. Loyola.
ZUURMOND, Rochus (1998). Procurais o Jesus Histórico? São Paulo. Loyola.

6 comentários:

  1. ¡Felicitaciones por tu dedicación...es más que un placer leer tus textos...que nuestro Padre siga dándote toda la capacitación con las letras!

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  2. Shalom
    muito bom,mais pensando nas parábolas no que dizem a respeito Reino tento compreender nos dos tempos na ambiente vivencial de Jesus na proclamação do Reino,e transporta o sentido para os dias de hoje no nosso ambiente em nosso contexto vivencial. Penso que se só analisarmos em termos históricos possa por sua vez perder o valor para os dias atuais .

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  3. Pois é... trata-se de uma preocupação da teologia cristã, uma vez que a entende como uma continuidade da revelação... é um desafio. Entretanto, não dá para escapar das problemáticas que se impoe para interpretação...

    Valeu

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  4. Parabéns Teles, sempre colocando os problemas para o grande público pensar! Texto bem escrito, o conteúdo mto bom, sem contar q a tua referencia é mto bem fundamentada! Um abraço!

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  5. Meu caro amigo Alexander, obrigado pelas considerações...

    Abraço

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