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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Imitar, imitar é preciso

Assistindo a um desses típicos documentários do mundo animal, fiquei impressionado com o comportamento de algumas espécies, tão complexas quanto os comportamentos sociais dos homens. O documentário muito bem produzido e com flagrantes incríveis dos pequenos animais e insetos, procurava explicar algumas espécies de lagartos, parecidos com o que chamamos “lagartixas”. Um dos flagrantes mostrou um tipo de lagarto que havia elaborado toda uma técnica, modificando seu modo de andar, imitando um tipo de besouro, com o qual convivia no mesmo território, nos termos antropológicos, na mesma cultura.

O referido besouro, com seu “casco” elevado e a parte inferior do corpo distante do chão por suas longas pernas, permitia um andar todo particular, e, além disso, possuía um mecanismo de defesa, que consistia num jato de veneno lançado nos olhos de seus predadores. Desse modo, o aparente inofensivo besouro intimidava seus observadores, e seu andar contribuía para esta “opulência”, como quem não temia o “perigo”.

O lagarto, seu vizinho de território, desenvolveu o modo de andar do besouro, por acreditar que este era também um dos motivos pelos quais o besouro não era atacado. O modo todo particular de andar do besouro, foi imitado pelo lagarto, o que tornava a cena engraçada: suas curtas pernas esticadas a fim de não encostar a parte inferior do corpo no chão e mais interessante, sua espinha dorsal visivelmente ondulada com objetivo de imitar o “casco” que o besouro possuía. Desse modo, o lagarto, acreditava poder passar-se por “besouro” diante de seus supostos predadores: a imitação como mecanismo de defesa e sobrevivência.

Isso nos leva a pensar na “imitação” como um processo social de supressão de uma identidade e a construção de outra. Os teóricos da sociologia tentaram sistematizar e explicar os vários aspectos da vida em sociedade, o que demonstra sua complexidade.

Para Gabriel Tarde, por exemplo, a imitação é fator central para compreender a vida social, embora Émile Durkheim discorde e aponte outros aspectos confundidos com a imitação. Para Durkheim, só merece ser considerado “imitação”, “um ato que tem como antecedente imediato a representação de ato semelhante, realizado anteriormente por outrem”. Max Weber, por sua vez, explica os fenômenos da vida social diferente da coerção durkheimiana, isto é, os indivíduos não agem na vida social apenas pelo que “imposto de fora”, por uma força coerciva, mas haveria também uma criatividade, o que ele chama de “ação social” individual.

Pensarei “imitação” sem a preocupação restrita com esta ou aquela teoria, embora elas auxiliem no geral. Na observação do lagarto e do besouro e com o objetivo de refletir sobre a vida humana, poderíamos conceber a imitação como possuindo um caráter prático e funcional: seria a reprodução de um conjunto de hábitos e comportamentos que funcionaram em outros momentos e contextos diferentes. É a criatividade a partir do outro e no sentido durkheimiano, daquilo que é externo ao sujeito. O plágio, a cópia é um aspecto da convivência em grupo. Embora tenha seu sentido pejorativo, a imitação é a face daquilo que chamamos “influência”.

A idéia de originalidade não pode ser evocada em nenhum aspecto da vida social, seja econômico ou religioso, cultural ou social. Basta lembrarmos-nos de Erving Goffmann para perceber todas as dimensões da vida social como um teatro, onde “representação do eu” recorre à imitação dos hábitos esperados pela platéia. Esse processo de socialização, isto é, o processo pelo qual o indivíduo é inserido num grupo social, obedece aos primeiros passos do aprendizado, a saber, a imitação. Assim, aprendemos a andar e falar. Tudo o que atribuímos inatos e particulares, inclusive os hábitos e temperamentos, são na verdade, frutos de um longo processo de imitação, que sem perceber, naturalizamos.

Outro aspecto da imitação é descrito por Marcel Mauss como “técnicas corporais”. A definição básica das técnicas corporais, segundo Mauss, é a habilidade de usar o corpo. E disso, o lagarto não teve dúvidas ao perceber que poderia passar-se por besouro diante de seus predadores. Do mesmo modo, os homens, criam suas identidades a partir das referencias culturais em que vive: imita os pais, os amigos, os professores, mesmo quando acredita ser seu modo particular. Basta verificar seu passado, sua história e cultura, para percebemos a impressionante teia de imitações, técnicas e hábitos corporais.

As faces mais conhecidas do processo de imitação é caracterizado por um “plágio explícito”, isto é, quando as identidades são indistintas, criando um dualismo de “falso” e verdadeiro”; e um “plágio implícito”, quando o processo de imitação se desdobra e descobre novos cominhos, que serão entendidos como “originais”. Entretanto, obedece à um ciclo de hábitos e comportamentos, modos de ser e de pensar.

Por fim, até o apóstolo Paulo, em suas epístolas conclamou: “sede meus imitadores, como sou de Cristo”. Isto é imitação: um longo processo de seleção de hábitos necessários para a existência.
 
Atire a primeira pedra quem nunca “imitou”, pois afinal, imitar é preciso...

Doce amarga sinfonia da vida


Better sweet symphony ou “doce amarga sinfonia” é um dos hinos urbanos da banda inglesa The Verve (recomendo), que indiscutivelmente faz parte da lista de minhas prediletas. Talvez umas das que mais representa o modo como vejo a “doce e amarga sinfonia da vida”. Doce e amargo são símbolos dos opostos, dos contraditórios, da felicidade e melancolia, etc.

A meu ver, a melancolia (característico também da música citada) não é necessariamente um amargo a ser evitado, mas um modo de perceber a existência, portanto, a vida. Significa olhar do modo como ela é, como ela se mostra e é construída, do modo como suas fantasias são elaboradas para dar sentido. Isso talvez assuste algumas pessoas, motivo pelo qual preferem iludirem-se.

O lema de que “a vida deve ser vivida e não pensada” é desonesto em si mesmo, por uma série de razões. Umas delas, é que este lema se coaduna com os padrões que definem como felicidade, como por exemplo, a necessidade de consumir e possuir: ser feliz é “ter”. Trata-se, portanto, de um especifico modo cultural de conceber a felicidade: o problema se coloca na universalização deste modo de ser feliz. Por isso, quem adota o lema como aforismo absoluto hesita refletir sobre outros aspectos da vida, que inclusive lhe dá sentido, como o sofrimento, a tristeza, a morte: “viver” passa a significar “fingir”, de modo que o “pensar” nestas condições incomoda.

Este é um tema sobre o qual a filosofia se debruçou em seus diversos desdobramentos: ora confessando um pessimismo diante da vida ou como um beco sem saída, a não ser o desespero. Encarar a vida e compreender suas contradições, seu doce e amargo, não deve ser compreendida como cair no “desespero”, de acordo com a crítica de Nietzsche à Schopenhauer, mas de perceber nas contradições, nos opostos, a possibilidade de perceber a vida em seus vários aspectos. Como diria Nietzsche, não existe felicidade, e sim momentos felizes; não somos felizes, “estamos felizes”. Por isso, Nietzche propunha a transmutação dos valores ocidentais, cuja característica era negar o corpo, a criatividade, a realidade e a potência humana, em favor de uma metafísica.

Até o mais sisudo ancorado na inabalável cátedra da razão e o mais sorridente nos palcos da comédia, já experimentaram, aqui e ali, uma sensação estranha e humana, que poderíamos chamar de melancolia. Nos termos do antropomorfismo teológico (seja de qual for à religião), as divindades também se entristecem e choram. Diria que, o ratio (razão) e o pathos (emoção) são aspectos de uma mesma existência, complementando-se, embora uma veja na outra sua oposição.

Até pouco tempo (e ainda há) havia uma moda na psicologia que consistia na classificação e universalização dos temperamentos, sendo aplicável a todos os seres humanos. Haveria, por exemplo, um tipo temperamental chamado “melancólico” (com o qual fui muitas vezes classificado), com tendências sentimentais e “depressivas”, como se fosse uma característica de um tipo de ser humano, em oposição a outros temperamentos. Este “coitado”, nestas condições, precisaria, no mínimo, se “orientar” nos manuais de auto-ajuda. Nesta enorme prateleira psicologizante e atomizante, bastava descobrir quem você é e talvez se iludir pelo que não é. Muito parecido com o horóscopo, que mesmo embaralhado pode fazer algum sentido, embora fantasioso. Pretendem fazer de uma formula a explicação de uma diversidade, do universo. A meu ver, perderam a oportunidade para explicar a diversidade na unidade: o quanto somos muitos, doce e amargo, felizes e melancólicos, portanto, contraditórios, tudo ao mesmo tempo. Por isso a vida pode ser entendida como uma doce e amarga sinfonia da vida.