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quinta-feira, 31 de março de 2011

O imaginário escatológico pentecostal

O último julgamento - Michelangelo (Afresco na Capela Sistina - Vaticano)

Um fato me chamou atenção: tratava-se de uma reportagem (março de 2011) sobre o desaparecimento de uma família, que, depois de encontrados, esclareceu-se de que o motivo para tal desaparecimento estava relacionado a uma crença conhecida entre os evangélicos pentecostais como “arrebatamento da igreja”. Para grande parte dos pentecostais, tal evento significa sua redenção deste mundo, evento para o qual devem “estar preparados”, aguardando sem duvidar que Jesus retornará para leva-los ao céu enquanto vivos (ao passo que os mortos seriam ressuscitados). Entretanto, estar entre os seletos não é tarefa fácil, pois seus modos de vida são confrontados, conforme se observar nas pregações pentecostais: ficar para trás, significa "perder a chance de salvação". Convicção e frustração são inevitáveis nesse imaginário messiânico.  

Sendo assim, pus-me a pensar neste ensaio acerca deste imaginário escatológico pentecostal a partir de uma perspectiva antropológica. Interessa-me compreender a elaboração e transformação deste imaginário, condicionado ao contexto histórico-social. Ou seja, sob qual fundamento histórico este imaginário lança bases para dar-lhes sentidos?

Levando em consideração que sua elaboração é fruto de uma experiência de tempo e espaço, isto é, está condicionada a momentos e situações históricas, cabe-nos um olhar antropológico sobre elas. Se o pensamento dos homens estão aí, materializadas em instituições e relações sociais, é possível perceber como estas leituras de mundo são elaboradas. Temas como a noção de alma, espíritos, fim dos tempos, noção de vida a após a morte, aparecem dos mais variados modos em diversas culturas. Desse modo, a literatura antropológica buscou descrever mitos e ritos relacionados à estas noções. Viveiros de Castro, por exemplo, desenvolveu um brilhante trabalho sobre a escatologia Araweté e apresentou o modo como esta cosmologia dava sentidos à existência e organização social.

Estes sistemas escatológicos – refiro-me agora aos pentecostais – desde os mais elaborados e sofisticados aos menos sistematizados e populares, cada um em sua diversidade e a seu modo, procuram dar sentidos às condições históricas sob as quais vivem. Entretanto, poucos se dão ao trabalho de analisá-las a partir dos termos em que são colocadas. No caso do imaginário pentecostal, é muito cômodo ridicularizá-las em detrimento de outras formas de pensar. O que faço aqui, é tentar superar meu próprio etnocentrismo, e olha-las de outro modo, num esforço para estranhá-las.   

O termo "imaginário" não é menos controvertido que "escatologia". Não tenho espaço suficiente aqui para problematizá-las, mas, basta dizer que ambas, por sua vez, estão inseridas num conjunto de transformações conceituais ao longo de décadas. O termo éscatos, cujo sigficado básico é "ultimo", "o que vem depois", era utilizado de modo pejorativo para se referir aos “restos”, como por exemplo, aos resultados “finais” que os alimentos eram submetidos após serem ingeridos. Somente mais tarde, o termo passou a dar sentido, entre os cristãos, aos "tempos finais da história humana", configurando-se, inclusive como uma “doutrina das ultimas coisas”. Desse modo, trata-se de uma leitura determinista, onde o começo é escrito e explicado pelo final.

Vejamos então – rapidamente – o condicionamento histórico à que este imaginário pentecostal esteve submetido e suas transformações. O modo mais influente de interpretação fundamentalista ficou conhecido como “dispensacionalismo”. John Nelson Darby (1800-1882) é a apontado como seu maior popularizador. Sua interpretação partia da premissa de que as profecias vetero-testamentárias em relação a Israel precisavam ser “literalmente” cumpridas. Com este pressuposto, Darby fez distinção entre “Reino de Deus” e “Reino dos Céus”, “evangelho do Reino” e “evangelho da Graça”, estabelecendo planos distintos divinos para Israel e para a Igreja. Por certo, uma análise de cada conceito seria interessante para esclarecer este complexo sistema. Para Darby, quando Jesus anunciou que o Reino de Deus estava próximo (Evangelho do Reino), estava fazendo referência ao Reino teocrático terreno prometido a Israel. Entretanto, Israel rejeitou a oferta do Reino, e, em lugar de estabelecer o Reino para Israel, Jesus introduziu uma nova mensagem, denominada “Evangelho da Graça”.

Como apontei, este sistema escatológico tornou-se uma provável opção em sua época, talvez por ser uma forte reação ao liberalismo teológico, principalmente nos Estados Unidos. Sabe-se que a teologia liberal foi uma tentativa de harmonizar a fé cristã ao mundo moderno. Temas como a intervenção divina na história humana, comum aos primeiros cristãos, foram relegados à mentalidade supersticiosa dos discípulos, à mitos e lendas; e, cabia, portanto, aos modernos reinterpreta-las em suas categorias, em harmonia com a ciência. Houve esforços de grandes teólogos alemães como, Willian Wrede que tratou de compreender a escatologia de Jesus. Adolf Harnack e Albretch Ritschl, ao desescatologizar o Novo Testamento, tentaram dar-lhe aplicações éticas. Rudolf Bultmann a partir da interpretação existencialista procurou demitologizá-la. Albert Schweitzer tentou lançar luz sobre o Jesus Histórico, demonstrando o quanto o próprio Jesus e os discípulos se viam diante da eminente e frustrada implantação do reino messiânico. Cada corrente formou escola em sua época, buscando, acima de tudo, superar os problemas que a modernidade lançara sobre a religião.

Por outro lado, alguns teólogos desencantados e frustrados com o liberalismo teológico, procuraram revisa-la e denunciá-la, como é o caso de Karl Barth e Brunner. Ainda entre eles, pode-se mencionar Jürgen Moltmann, para quem a escatologia cristã deve ser fundamentada num evento histórico (e não mito), a saber, a ressurreição de Jesus. Inspirado no filósofo marxista Ernst Bloch, Moltmann denominou seu sistema de “escatologia da esperança”. Moltmann procurava dar respostas a um mundo que estava se desintegrando em conflitos e guerras, e percebendo em pleno anos 60 e 70 a ineficácia de paz prometida pela vanguarda cientifica e moderna.

As inquietações de Moltmann acerca dos conflitos sociais fomentaram diversas novas teologias, entre elas, a “Teologia da Libertação” na América Latina. Havia uma realidade experimentada neste continente, diferente da Europa e dos América do Norte, que levou o teólogo protestante Rubem Alves, e os católicos Leonardo Boff, Gustavo Gutierrez e outros, a elaborarem um pensar teológico aliado à preocupações sociais, como a pobreza. A temática do reino de Deus tornou-se o modelo para as denúncias destas estruturas. 

No contexto fundamentalista americano, nada contente com a postura da teologia moderna, os teólogos, dedicaram-se a produzir - mas não com a mesma erudição típica dos teólogos alemães - uma teologia entendida como "conservadora" e comprometida com a inspiração divina das Escrituras. Tratava-se de uma interpretação literal e futurista dos textos bíblicos. Neste sentido, a vertente dispensacional fez muito sucesso.

No Brasil, especificamente entre os pentecostais, nenhuma destas correntes teológicas adaptou-se com maior vigor ao imaginário popular quanto o dispensacionalismo. Tal sistema escatológico é fruto de um velho esquema pré-milenista que consiste em dividir a história sete dispensações, sendo: Inocência que teria sido experimentado por Adão e Eva antes da Queda; Consciência que teria sido uma experiência do pós Queda; Governo Humano, inaugurado no mundo pós-dilúvio, Patriarcal, entendido como a aliança de Deus com Abraão, por exemplo; Lei entendido no período que vai de Moisés à Jesus; e, finalmente a a dispensação da Graça, inaugurada por Jesus; precedendo a última, conhecida como dispensação Milenar, entendida como a manifestação final do Reino de Deus entre os homens. Por isso o termo “dispensação”, pois segundo este sistema, seria o meios pelos quais Deus trata com os homens. De acordo com este sistema, a era atual corresponderia à dispensação da Graça caracterizada pela pregação do evangelho e no limiar de uma nova dispensação. O fim da dispensação da Graça consistiria basicamente com a vinda de Jesus para arrebatar aqueles que se arrependeram e estão o aguardando. Tal evento, foi e continua sendo alvo de muitas especulações entre os próprios pentecostais. 

Além disso, o sistema dispensacional difere dos anteriores ao propor que a vinda de Jesus se dará em duas fases, uma vinda secreta e precedida por "sinais", entendida como "arrebatamento da igreja", e a segunda fase, entendida como "parousia", sete anos depois do arrebatamento para "livrar" Israel do suposto Anticristo, pelos quais foram enganados e recebido como Messias. Nesta fase, enfim, Jesus estabeleceria o tão prometido e aguardado Reino e a igreja reinaria com Ele, por mil anos, a sétima dispensação. A descrição se passa como se fosse simples, mas, é mais complexo que se pensa. Observa-se neste sistema um esforço por ajustar-se cronologicamente à história.     

Antônio Gouvêa Mendonça destaca algumas características do fundamentalismo dispensacional, de onde é possível compreender o interesse por tal evento:

a) Gosto exagerado pelas profecias, com o abandono relativo dos demais quadros básicos da fé cristã;
b) Expectação permanente da volta de Jesus Cristo;
c) Insistência em sinais;
d) Insistência em quadros referenciais de doutrinas que possam transmitir segurança, ou melhor, respeito pela reta doutrina (dogmatismo);
e) Certeza de que os que não compartilham com seus pontos de vista religiosos não são absolutamente cristãos.

Esta corrente foi popularizada no Brasil através dos comentários da Bíblia Scofield, pelas publicações da Organização Chamada da Meia Noite e de editoras evangélicas que traduziram uma série de autores americanos como, por exemplo, Lawrence Olson com O Plano Divino Através dos Séculos; Hal Lindsey e sua A Agonia do Grande do Planeta Terra; William Goetz com Apocalipse Já; só para citar alguns dos mais populares e pioneiros. A Chama da Meia Noite, fundada pelo Suíço Wim Malgo, popularizou a escatologia através de seus periódicos ao tomarem como ponto de partida os acontecimentos e noticiários referentes à Israel. Entendem que Israel seria a chave interpretativa para os planos de Deus no mundo. Está claro que se trata do sistema dispensacional. Ainda cabe mencionar que este sistema dispensacional tornou-se fonte inspiradora para muitas produções do "cinema" evangélico. Filmes como "Megido", "Deixados para trás", entre outros, fazem parte de uma fileira cada vez mais crescente neste mercado.    

Cabe ainda dizer que o sistema dispensacional recebeu maior impulso nos anos seguintes a Segunda Guerra Mundial. Surgia duas grandes potências mundiais, a saber, União Soviética e Estados Unidos, resultando nas competições que ficaram conhecidas como “guerra fria”. Entre os dispensacionalistas americanos, que desde sempre se entenderam como a nação pela qual Deus iria implantar seu reino, fazia todo sentido encontrar um “inimigo” e ameaça a diabólica a esses planos: tratava-se do “comunismo”. No calor destes conflitos políticos, a literatura dispensacionalistas abundou sobre uma suposta invasão da Rússia à Israel, gerando a terceira guerra mundial. Logo depois, somou-se às interpretações o perigo do Iraque de Sadan Hussein, largamente identificado como “o anticristo” do apocalipse.

Dito isso, escritores e teólogos pentecostais brasileiros se encantaram com a escatologia dispensacionalista produzida pelos americanos nos anos 70. Tudo parecia-lhes novidades e logo surgiram criativas interpretações. Motivados pelas iminentes profecias, é possível encontrar em suas temáticas assuntos como “o fim do mundo”, “o sistema do anticristo e o número 666”, a “Rússia comunista”, a “terceira guerra mundial”, “o arrebatamento dos escolhidos”, “o milênio”, etc. Há um novo surto escatológico - não tão novo assim - que, ao que parece está rendendo publicidade aos seus idealizadores, senão uma rendável poupança: trata-se de materiais relacionados a uma suposta Ordem Mundial chamada "Iluminate". É também desdobramento do dispensacionalismo. 

Sentindo-se contemporâneos de um fim iminente, estes pregadores e teólogos pentecostais, se dedicavam na leitura dos acontecimentos a partir do consideram profecias para o fim dos tempos. Um destes autores americanos, que se tornou popular no Brasil, foi Russel Norman Champlin, autor de uma série de comentários da Bíblia e de uma enciclopédia, ainda hoje uma fonte para muitos estudantes pentecostais. Num de seus verbetes, pode-se notar as preocupações escatológicas das décadas de 80 e 90. Dizia Champlin, cuja primeira edição é de 1991 no Brasil:

“As predições contemporâneas asseveram que ele (o anticristo) nasceu a 2 de fevereiro de 1962, Palestina; foi para um dos países árabes. Atualmente se encontra em Jerusalém” (1991, pg. 182).

Em outro comentário:

“O aparecimento do anticristo se dará imediatamente antes do período chamado ‘tribulação’, um período prolongado (40 anos, achamos) que envolverá agonias inenarráveis para os habitantes da terra, sem paralelo na história registrada. Muitos esperam que este período comece na década de 1990” (1991, pg. 492).

Não obstante a isso, estes comentários foram preservados ainda na 6ª edição de 2002, como esta abaixo:

“Os místicos contemporâneos afirmaram que o Anticristo já estava vivo, tendo nascido a 5 de fevereiro de 1962. Há razões convincentes para aceitarmos este conhecimento ‘visionário’. Haveríamos de vê-lo manifestar-se em 1990, embora só chegasse ao seu grande poder em cerca de 1993” (2002, pg. 492).

Como se vê, essa cosmologia do fim dos tempos é fruto de uma leitura da "guerra fria" e reinterpretada em outros contextos.

Seria muito simples concluir este ensaio denunciando o imaginário pentecostal, demonstrando o quanto eram ridículas suas interpretações e pode até parecer que foi minha intenção ridicularizá-las ao citá-los. Mas, como disse no início, não se trata disso. Minha intenção foi lançar luz sobre um conjunto de convicções sobre as quais as pessoas em suas épocas lançam mão para construírem sentidos. Elas são inclusive superadas, mas sempre condicionadas à leitura de mundo dos sujeitos.

A família alvo da reportagem que fiz referência no início é um exemplo dessas convicções messiânicas. Provavelmente, a família citada, tenha sido convencida de que o suposto arrebatamento (sobre a qual pouquíssimos pentecostais ousariam a questionar) ocorreria na semana passada (mês de março, 2011) ao fazer uma leitura dos recentes acontecimentos, como conflitos sociais no mundo árabe, fome, violência, fenômenos naturais como ocorridos no Japão, etc. Faz todo sentido para este imaginário liga-las ao que entendem serem "sinais dos tempos" referidas nas profecias bíblicas. Não se trata de dizer se são verdeiras ou não, repito, mas como o imaginário se fundamenta em referências de sua época.