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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Assim falou Apókriphos...

É característico do pensamento de Friedrich Nietzsche tratar de uma séria de questões por fragmentos, aforismos, alías, "desmontadores". Muitos de seus aforismos são proferidos por seu personagem, seu alter-ego, Zaratustra, um profeta para além de seu tempo, cujo objetivo é transmutar uma série de valores: e por isso mesmo, um profeta mal compreendido. Por sua ousadia, Nietzsche é um dos meus amigos prediletos – entre outros na categoria dos mortos – cuja obra permanece viva e desafiadora, quem sabe atemporal por bons séculos.

Longe da genialidade criativa de Nietzsche, mas como um pupilo que aos pés de seu mestre resolve esmera-se em “imitá-lo” até criar seu próprio “caminho”, resolvi também criar um personagem: trata-se de “Apókriphos”. Entretanto, não se trata de um “profeta”, seja qual o for o sentido atribuído a esta categoria; também não se trata de um “filósofo”, embora ele também seja um “amigo da sabedoria”; também não se trata de um “cientista”, cuja subjetividade acredita em objetividade. De quem se trata então? Trata-se da ambiguidade, do ser e não-ser, da contradição, do sim-não-talvez, da certeza da dúvida.

Eis então Apókriphos: Aquele que por não ser compreendido e não se enquadrar em modelos “canônicos” tidos como naturais, é classificado como “obscuro” e diferente.

Certa vez lhe perguntaram em tom irônico e ao mesmo tempo aguardando uma resposta salvadora, típica do que se espera de um profeta otimista:

- Quando as pessoas desistiram de mudar o mundo?

Ao que respondeu:

- Quando descobriram que, primeiro, precisavam a si mesmos. Eis aqui a essência da doutrinação da consciência, característico de diversas ideologias: ela supõe apenas o “caminho” para o outro.

2 comentários:

  1. Parabéns Teles, principalmente pela coerência da argumentação, alipas "heraclitiana". Argumento extremamente mobilista. Tudo é móvel, inclusive o "ser", que ora é também "nao-ser", é problema de perspectiva, do olhar, ou de como as coisas se nos apresentam. Seja lá como for, Heráclito, Platão ou Kant. Seja o móvel o "ser" mutável, ou as características da physis (natureza), que se manifesta fora da essência (ser), o importante é que aprendemos quando somos capazes de aceitarmos que precisamos aprender mais como o nosso desconhecido, uma espécie de "anthropos abscondito", ou ou seja, que tenhamos a capacidade de diálogar com o que temos mais medo e escondemos dentro de nós.

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    1. Obrigado pelas considerações Alexander. Você tem razão ao lembrar de Heráclito.
      Até mais

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