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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Teologia reversa

Jesuíta Intérprete – Dizem que não querem deixar a Missão, é seu lar.

Bispo – Devem se submeter a vontade de Deus. Diga-lhes!

Jesuíta Intérprete – Dizem que foi a vontade de Deus de saírem da selva e construíram a Missão. Não entendem porque Deus mudou de ideia.

Bispo – Não ouso entender as razões de Deus!

Jesuíta Intérprete – Como sabe qual a vontade de Deus? Não crê que o senhor fale por Deus, mas sim pelos portugueses.

Bispo – Não falo exatamente por Deus. Falo pela Igreja que é um instrumento de Deus na Terra.

Jesuíta Intérprete – Fale com o rei de Portugal.

Bispo – Já falei, ele não atenderá.

Jesuíta Intérprete – Diz que também é rei e não atenderá. Dizem que erraram em confiar em nós. Eles vão lutar.

O diálogo acima é extraído do excelente filme A Missão, de 1986, dirigido por Roland Joffé e estrelado por Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson, que interpretam membros de uma Ordem Jesuíta em missão em terras sul-americanas. O filme retrata a tentativa de missionários jesuítas de cristianizarem os índios Guaranis nas fronteiras do Paraguai e Brasil, no século XVII, com objetivo de fundarem uma missão nestas terras. O problema gira em torno das disputas políticas dos colonizadores portugueses e espanhóis pelo território guarani, onde foi estabelecida a missão jesuíta, colocando a Igreja numa situação complicada ao buscar uma saída pacífica para o conflito.

O diálogo supracitado se dá entre o Bispo líder da ordem jesuíta e o “chefe” guarani, traduzido pelo padre Gabriel (interpretado por Jeremy Irons). Entretanto, não é meu objetivo produzir uma sinópse do filme (nem pretendo estragar o final para quem ainda não assistiu, pois vale apena), mas destacar a construção e "reversão"  cultural dos códigos “Deus” e "rei" a partir do choque entre dois mundos e seus múltiplos interesses: por um lado, a catequização universal levada a cabo pelos missionários; o interesse expansionista colonial dos portugueses e espanhóis (negociando o partilha da região), justificando a exploração e escravidão; e a bravura dos guaranis em defesa de seu território, embora em desvantagens contra a “civilização”.

Aos olhos dos jesuítas, a conversão dos guaranis cumpria uma transição para participação na universalidade da “humanidade”, visto que os tratavam como “espirituais por natureza”, uma condição universal do ser “humano”; aos olhos dos mercadores, os guaranis não possuíam “costumes” que caracterizam como “humanos” (isto é, os costumes europeus), legitimando sua condição “superior” e transformando-os em escravos. Por sua vez, os guaranis não devem ser vistos como ingênuos, cuja “cultura” se perde no contato com o homem branco, como defendiam os teóricos da "aculturação". Pelo contrário, em sua perspectiva, os guaranis somam seus códigos culturais ao dos homens brancos para elaborar uma explicação da situação, tanto ao processo de catequização quanto ao processo de exploração mercantil.

Um dos códigos culturais centrais dessa relação é a concepção de “Deus”, pois afinal, os colonizadores portugueses e espanhóis e os missionários jesuítas tinham algo em comum: eram cristãos. Assim, a teologia do Bispo de que os guaranis “devem obedecer a vontade de Deus”, é em seguida revertida pela mesma afirmação teológica da providencia divina: também foi a “vontade de Deus” que estes saíssem da selva! Porque "Deus mudaria de ideia"? Está claro que se trata de uma cláusula teológica reversa: aquela conhecida como “imutabilidade de Deus”, colocada em questão pela perspectiva guarani.

A suma teológica da providencia divina é também colocada questão pelos guaranis: enquanto o Bispo afirma não ousar questionar “as razões de Deus”, cujo propósito privilegiava de antemão o homem branco, os guaranis questionam sobre como “saber a vontade de Deus”. Estava claro – para os jesuítas – que os guaranis não eram tão ingênuos quanto pareciam: ao contrário do que se atribuí, os guaranis elaboram também uma “teologia guarani” a partir dos códigos europeus, questionando a institucionalização da divindade. Essa “teologia da libertação guarani” é sintetizada na frase: “o senhor não fala por Deus, mas pelos portugueses”.

Outro código acionado na relação de poder é a concepção de “rei”. Ao tentar buscar uma saída pacífica para o conflito, cogitou-se uma apelação para a coroa portuguesa. Replicado pelo Bispo de que o rei de portugal não atenderia tal apelação (em relação à não ceder a região para os espanhóis), o “chefe” guarani compreende a transcendentalização que o homem branco faz de seu rei, uma vez que tal majestade legitimava-se pela vontade de Deus, o mesmo Deus cuja teologia jesuíta-guarani havia colocado em debate. O diálogo termina sem acordo pacífico quando o chefe guarani afirma que "também é rei” e não atenderia ao pedido do Bispo.

Assim, parafraseando o antropológo Roy Wagner, pode-se pensar na reversibilidade de códigos culturais ou mesmo numa "invenção da cultura". Para Wagner "todo esforço para conhecer outra cultura deve no mínimo começar por um ato de invenção" (WAGNER, 2010, p. 37). Só é possível conhecer outra cultura mediante a "extensão" de nossas percepções, de modo que a "inventamos" a partir de códigos compartilhados.

Este processo criativo de "invenção" e "inversão" de determinados códigos é exemplificado pelas relações entre jesuítas e os índios guaranis no filme já citado. A metaforização dos conceitos de "Deus" e "rei" ganham extensões criativas na reversão da cosmologia européia para guarani. Foi isso que chamei de "teologia reversa", parafraseando Roy Wagner que propõe uma "antropologia reversa" ao estender capacidade criativa ao outro.     

Referências

WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

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