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quarta-feira, 2 de maio de 2012

DOIS MUNDOS, DOIS PROJETOS: ambiguidades na noção de civilização em Euclides da Cunha


Obs: Este paper foi apresentado à disciplina de "Política VII: Formação e o desenvolvimento político do Brasil", ministrado pela prof. Rodrigo Estramanho, no primeiro semestre de 2012, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESP-SP.



RESUMO


Este ensaio tem como objetivo discutir a ambiguidade da noção de civilização a partir da leitura que Euclides da Cunha faz do conflito entre “dois mundos”, a saber, a República e seu modelo europeu de progresso e os sertanejos de Canudos, tidos como “obstáculos” de sua consolidação. Pretende-se fazer breves apontamentos que possibilitem a compreensão de dois projetos de história em oposição, operado pela lógica interna de ambos os mundos. Para tanto, toma-se como recorte a noção de civilização na descrição de Euclides, como modelo na apresentação de ambos os projetos.

Palavras-chave: Euclides da Cunha, Civilização, República, Canudos.


A PROPÓSITO DA CIVILIZAÇÃO: AMBIGUIDADES NA INTERPRETAÇÃO DE EUCLIDES DA CUNHA.


Em nome de uma luta da civilização contra a barbárie, o exército da República esmagou os pobres fanáticos do interior. Francisco Weffort (2006, p. 227).

Os Sertões de Euclides da Cunha é tido por especialistas como uma das obras literárias mais importantes na interpretação do chamado “Brasil profundo”, especialmente por suas variadas facetas e ambiguidades no conteúdo de sua interpretação em relação ao conflito de Canudos.

A literatura sociológica dedicada à interpretação dos episódios que envolveram os ideais republicanos e canudenses entre os anos de 1840 e 1900, são unanimes quanto à complexidade de compreensão que os partidários da República tiveram em relação aos sertanejos de Canudos. A concepção de mundo partilhada pelos sertanejos parecia ininteligível aos valores republicanos, – e vice-versa – de modo que, embora redutível em relação aos aspectos sociais, políticos e religiosos, pode-se estabelecer para fins didáticos a distinção entre mundos, aparentemente intransponíveis: por um lado, um modelo de “civilização” gestado pela República e distinguido por Euclides da Cunha como “litoral”; e por outro, um modelo da “barbárie” dos sertanejos de Canudos, classificado por Euclides como “sertão”.
Quanto a isso, Marcos Guedes Veneu destaca que movimentos sociais rurais como Canudos, apenas “existiam” na medida em que eram “considerados obstáculos à consolidação da República” (1986, p. 40), sendo, portanto, definidos pela negatividade, tais como “atraso”, “bárbaros”, etc. Esta negatividade baseava-se numa lógica política que definia seus opositores como “anti-republicanos”, reprimindo rebeliões e supostas tentativas de restauração da monarquia (WEFFORT, 2006, p. 226). Visto que o povo não era o sujeito desse processo histórico e nem participava desse novo cenário político, tendo assistido tudo “bestializados”, conforme descrição de Aristides Lobo (apud WEFFORT, p. 226), só daria “sinais de sua existência por meio de algumas rebeliões notáveis” (WEFFORT, 2006, p. 225).
Quanto à disparidade entre os dois mundos, Francisco Weffort argumenta que o livro Os Sertões de Euclides da Cunha, cujas notas narram os bastidores dos conflitos, “permanece ainda como exemplo de como eram lamentavelmente míopes as oligarquias fundadoras da República” (2006, p. 228).
Entretanto, tal complexidade não se restringe apenas aos valores republicanos e a opinião pública de sua época que a transformou em “questão nacional”, mas também a todo um conjunto de interpretações científicas posteriores, sendo preponderante a “lógica do social”, cuja tendência ainda persistia em reduzir a concepção de mundo dos sertanejos, escapando-lhe a compreensão de sua “lógica simbólica”, tal como sugere Cristina Pompa (2006, p. 75). De acordo com Pompa:


Desde Euclides da Cunha, enquanto o Estado nacional se preocupou as manifestações tão “desviantes” de uma parte significativa da população, a cultura letrada brasileira se aproximou dessas manifestações populares de uma forma ambígua, entre a estranheza piedosa em face do incompreensível “fanatismo” e o esforço de sua definição “científica” (POMPA, 2004, p. 72).


A metáfora dos dois mundos não remete apenas às clássicas dicotomias, tais como litoral/sertão na leitura de Euclides, moderno/arcaico, civilizado/bárbaro, mas também a projetos de história com lógicas diferentes, cujos valores constroem um modo de ver o outro. Na tentativa de explicar os diferentes projetos de história construída pelos dois mundos, Marcos Guedes Veneu propôs articular os pares antinômicos “progresso/atraso” operado pelos valores republicanos e “santidade/pecado” operado pela lógica simbólica dos sertanejos (VENEU, 1986, p. 41).    
Inspirando-me nesta chave interpretativa, o presente ensaio tem como objetivo discutir a construção da noção de civilização presente na leitura que Euclides da Cunha faz do conflito de Canudos. De que modo à noção de civilização é construída na leitura desse processo? Que projetos de história são gestados em ambos os mundos e de que modo Euclides os apresenta?
Nossa hipótese é de que ao produzir uma interpretação do conflito entre os dois mundos – especialmente dos militares da República e dos sertanejos de Canudos – Euclides projeta uma ambiguidade dependendo da posição que se coloca para leitura da noção de civilização.


DOIS MUNDOS E DOIS PROJETOS DE HISTÓRIA: A REPÚBLICA E OS SERTANEJOS.

Relacionada à ideia de progresso, lema da marcha da razão na transição do século XIX para o século XX, a noção de civilização é um dos marcos na trajetória intelectual de Euclides da Cunha: “a civilização é o corolário mais próximo da atividade humana sobre o mundo [...] o seu curso, como está, é fatal, inexorável” (CUNHA, 1995, p. 587).
Tendo como foco esta noção de civilização no contexto da obra, talvez seja possível mapear a leitura ambígua de Euclides em relação aos dois mundos: por um lado, os partidários da República, cujos valores representavam a marcha da razão, da qual também partilhava e ao mesmo tempo criticava; e por outro, o mundo dos sertanejos, do qual nutriu certa simpatia, embora lhe tenha permanecido “estranha”. Desse modo, tal leitura implica em conceber o primeiro mundo como sendo fundamentado nas ideias europeias de razão e progresso e o segundo marcado pela obscuridade e superstição, relacionado ao “atraso”. Nos termos de Veneu, “os jovens oficiais assim formados consideravam-se cidadãos-soldados e buscavam, através da intervenção na política, promover reformas sociais, defendendo a ideia de uma ‘ditadura republicana’ para eliminar o atraso do país” (VENEU, 1986, p. 41).
Sobreviventes do conflito de Canudos
Sobreviventes do conflitos de Canudos: maioria mulheres e crianças
A complexidade dos partidários da República em relação à leitura que faziam dos sertanejos de Canudos consistia na incapacidade de compreender sua lógica simbólica, isto é, na incapacidade de entender seus modos de conceber o processo histórico. Segundo Pompa, o projeto de história concebido pelos canudenses está fundamentado numa religiosidade penitencial e apocalíptica, chamada pela autora de “cultura do fim do mundo”, de modo que, a “utopia social sertaneja projetava assim a transformação das relações de poder num futuro escatológico” (POMPA, 2004, p. 71).
Tal lógica simbólica, escapava à compreensão dos republicanos positivistas, sendo interpretada como “fanatismo” e “superstição”. É com estas características que a leitura Euclides da Cunha, cuja educação é republicana, descreve o principal líder religioso de Canudos, o beato Antônio Conselheiro. Para Euclides, o beato representava em seu fanatismo a religiosidade de seus seguidores. Como bem observa Weffort, ao interpretar Euclides:   


A biografia de Conselheiro resume a existência da sociedade sertaneja. É por isso que, diz Euclides, o Conselheiro “arrastava o povo”. Não o arrastava porque o dominasse, “mas porque dominavam as aberrações daquele”. Também por isso, Conselheiro foi como que “impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a história como poderia ter ido para o hospício” (WEFFORT, 2006, p. 243-244).            


Assim, na lógica do projeto histórico-escatológico elaborado pelos sertanejos, a República era vista como inimiga desta realização meta-histórica, materializada temporalmente na ideia de monarquia, pois afinal, o sebastianismo continha essa base mitológica do rei Dom Sebastião que retornaria. Nesse sentido, a temporalidade mítica suspende o tempo profano e nesta ação produz as figuras do “santo” e do “mártir”, personagens que se colocam no limiar deste tempo escatológico ou sagrado. Na descrição de Euclides da Cunha, esta expectativa é observada em relação aos sertanejos:


Dentro da igreja, missionários recém-vindos haviam profetizado próximo fim do mundo. Deus o dissera- em mau português, em mau italiano e em mau latim- estava farto dos desmandos da terra. E os desvairados foram pelos sertões em fora, esmolando, chorando, rezando, numa mandria deprimente, e como a caridade pública não os podia satisfazer a todos, acabaram roubando (CUNHA, 1954, p. 130).    


Outra descrição que Euclides faz do sermão de Conselheiro é pertinente para demonstração de como o projeto republicano era visto na perspectiva escatológica dos canudenses:

Em 1898 haverá muitos chapéus e poucas cabeças... Há de chover uma grande chuva de estrelas e aí será o fim do mundo. Em 1900 se apagarão as luzes. Deus disse no Evangelho: eu tenho um rebanho que anda fora deste aprisco e é preciso que se reúnam porque há um só pastor e um só rebanho!... Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu exército... E quando encantou-se afincou a espada na pedra, ela foi até os copos e ele disse: Adeus mundo! Até mil e tantos a dois mil não chegarás! (CUNHA, 1954, p. 150-151).

Outro sermão atribuído a Antônio Conselheiro por ocasião de uma das tentativas de tomada sem êxito pela forma policial em Masseté (em 1893) deixa claro a interpretação que estes faziam da República e explica os motivos de suas resistências:


Meus irmãos, o anti-Cristo é chegado. [...] O ataque de Masseté constituiu uma prova para nós. O meu povo é valente. O satanás trouxe a república, porém em nosso socorro vem o infante rei D. Sebastião. Virá depois o Bom Jesus separar o joio do trigo, as cabras das ovelhas. E, ai daquele que não se arrepender antes, porque tarde não adiantará. Jejuai que estamos no fim dos tempos. Belos Montes será o campo de Jesus, a face de Jeová. Os republicanos não devem ser poupados pois são todos do anti-Cristo. De hoje em diante, será ‘dente por dente e olho por olho’ (ARAS apud DOBRORUKA, p. 7. s/d).





Antonio Conselheiro
Por outro lado, o projeto de civilização empreendido pela República partilhava de uma concepção positivista de história, segundo a qual o progresso seria alcançado graças ao exercício da razão. Nesse sentido, seus opositores “monarquistas bárbaros”, eram vistos como obstáculos a esse inevitável processo. Para Euclides, estes modelos europeus apresentavam-se como uma força inevitável às aspirações republicanas, de modo que dizia: “estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.” (CUNHA, 1982, p. 60).

Este processo histórico de civilização, altamente racionalizado como etapas necessárias do progresso, concebe seus opositores como responsáveis pelo “atraso”, e sua ação para eliminá-los produz a figura do “herói”, que em nome do patriotismo efetiva justamente o que pretendia eliminar. É nesse sentido que Francisco Weffort coloca a questão: “em nome de uma luta da civilização contra a barbárie, o exército da República esmagou os pobres fanáticos do interior” (2006, p. 227).      

  
Em suma, Euclides da Cunha coloca-se em diferentes posições na descrição que faz destes episódios: ora denuncia os exageros da civilização em relação aos pobres sertanejos, ora se simpatiza com aqueles a quem descreve como fanáticos e supersticiosos. Sua denúncia à República implica em atribuir às suas ações, as mesmas atitudes que os civilizados costumavam atribuir aos bárbaros.
Cabe ressaltar, que este ensaio – apresentado de forma rudimentar – não teve a pretensão de esgotar tal questão, mas apenas apontar novos caminhos de reflexão, podendo mesmo ser desenvolvido um projeto de pesquisa mais amplo com objetivo de explorar tais questões.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.


CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro. Francisco Alves, 1954.
  
____________. Os sertões: campanha de Canudos. São Paulo. Abril Cultural, 1982.

DOBRORUKA, Vicente. “Antônio Conselheiro, profeta do sertão?”. s/d.

POMPA, Cristina. “Leituras do ‘fanatismo religioso’ no sertão brasileiro”. In: Novos Estudos, Cebrap, julho de 2004, n. 69.

VENEU, Marcos Guedes. “A cruz e o barrete: tempo e história no conflito de Canudos”. In: Religião e Sociedade. Julho de 1986, n. 13/2.

WEFFORT, Francisco C. Formação do pensamento político brasileiro: ideias e personagens. São Paulo. Ática, 2006.

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