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quinta-feira, 15 de março de 2012

Etnografia do presépio em Santana de Parnaiba-SP

Este relato etnográfico tem por objetivo descrever um conjunto de práticas sociais em torno de um “presépio” de natal, uma maquete ou réplica artificial de um “estábulo”, em Santana de Parnaíba, cidade localizada a 35 km da capital paulista e acessível pelas rodovias Anhanguera e Castelo Branco. Esta cidade, atualmente com 431 anos (em 2012), é também conhecida por seu calendário religioso marcado pela tradição cristã, como por exemplo, a famosa rua de “tapete” elaborada pelas pessoas a partir de pó de serragem por ocasião do feriado de Corpus Christis; além do terceiro maior teatro a céu aberto conhecido como Drama da Paixão.

Realizada tradicionalmente todos os anos no período que corresponde ao Natal cristão, isto é, entre o mês de dezembro e janeiro, a temática religiosa em torno do presépio reúne turistas e moradores de diversos bairros. Montado no mês dezembro, o cenário do presépio é visitado principalmente à noite, a partir das 19h, devido ao espetáculo garantido pelas técnicas de iluminação.
Como acontece todos os anos, o presépio é programado para ser desmontado após o dia 6 de janeiro, um ritual observado pelas pessoas.


Este registro de campo corresponde ao dia 6 de janeiro de 2012, das 18hs às 21hs. Embora o tempo estivesse ameaçado por uma possível chuva, a programação elaborada pelos organizadores seguiu como planejado. Montado entre a Igreja Matriz Santa’Ana e a praça do coreto, o presépio reproduz um cenário dos tempos bíblicos, com bonecos mecânicos e roupas típicas, bonecos de animais no estábulo e a manjedoura com um boneco. Trata-se de um cenário de aproximadamente 15 metros observado pelas pessoas a partir de um limite que os separa dos bonecos – espaço suficiente para tirar fotos. O chão do cenário é forrado com palhas como um dos alimentos básico dos animais, como por exemplo, vacas e camelos; é ornamentado com alguns instrumentos de trabalho como um “pilão” e um “moinho”, bem como os respectivos bonecos posicionados para a preparação dos alimentos nestes instrumentos.    

Os bonecos mecânicos são de tamanhos médios, próximos da estatura de uma pessoa adulta. Apresentam movimentos variados numa sequencia repetitiva que dá sentido às suas atividades: os trabalhadores, os reis magos, cada um com seus respectivos presentes. José e Maria observam cuidadosamente o menino Jesus na manjedoura, uma espécie de “cesto de palha” forrado com um pano branco. O boneco do menino Jesus é branco de olhos azuis, caracteristicamente europeu e envolto por um pano azul. Ao fundo a figura de um anjo alado e com auréola, tipicamente de branco, os observa.
Assim que cheguei havia terminado uma celebração religiosa na Igreja Matriz e as pessoas organizavam-se próximo ao cenário do presépio para assistir uma apresentação de um grupo de folia de reis. Posicionados num espaço reservado frente ao cenário do presépio, o grupo de Folia de Reis de Cajamar, com músicas louvavam o menino Jesus, descrito na letra como “o menino Deus”; as letras faziam referencia à narrativa mítica do nascimento de Jesus, o coral dos anjos e a estrela que sinalizou os reis magos, temas da cosmologia cristã. As músicas eram cantadas por alguns devotos, na maioria senhoras. Os músicos, vestidos com roupas típicas, representavam os reis magos, bem como Maria e José. Portavam ainda alguns objetos, tal como a “bandeira do Espírito Santo”, tocada por alguns devotos enquanto faziam o gesto do sinal da cruz na testa e na altura do peito. Após esta apresentação, o grupo expôs seu CD para os interessados.

As pessoas, aparentemente núcleos de familiares, se posicionam próximos aos bonecos para registrarem aqueles momentos com fotografias, algumas tocando os bonecos e revezando-se entre si para as fotografias. Faziam isso enquanto se ouvia as músicas do grupo de Folias de Reis de Cajamar, tocadas pelo sistema de som.

Repetindo os gestos dos reis magos, cuja narrativa os descreve como presenteando o menino Jesus, as pessoas, pelo que pude observar, depositavam moedas e notas de dois reais na manjedoura, como se pode ver numas de minhas fotos. Tratava-se de um modo de presentear o menino Jesus.
A praça do coreto também reúne um grande número de pessoas ao passo que há também uma estrutura comercial de barracas e bares, que servem lanches e bebidas. O espaço geográfico é compartilhado por diversos atores sociais: devotos, curiosos, vendedores ambulantes e consumidores.

Há um interessante contraste entre gerações: os mais jovens, cuja tipologia pode ser caracterizada por “tribos urbanas”, parece concentrarem-se para consumir bebidas alcóolicas aos arredores da praça, enquanto os mais velhos parecem ser maioria nas programações religiosas. Trata-se de uma observação superficial e num período curto de tempo, mas válida como primeira impressão. Há também um relativo esquema de segurança fornecido pelo guarda municipal do município.
Enfim, o cenário mítico reúne uma variedade de atores, cada um, interpretando ao seu modo a memória evocada pelo presépio.