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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Suspirar


Suspiro profundo
Como quem deseja esvair-se
Embora opaco por sua natureza inominável
Quase sempre invisível por seus propósitos 
Toma-me como sua potencialidade desesperadora

Suspiro profundo
Como quem deseja ver-se de perto
Como quem, embora próximo de si mesmo
Deseja um caleidoscópio
Como quem ver-se distante do mais improvável
O eu

Suspiro profundo
Como quem deseja viver
Mesmo invisível, indizível e desprezível
Pois o suspiro (e nem precisa ser profundo)
É híbrido, amalgama de contradições...
 
Não é preciso entendê-lo
Apenas sentir...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A (menina) cadeirante


“Não quero ficar só”, balbucia ela
Entre lágrimas reprimidas
Comprimem as minhas
 
“Por que sou diferente?”, pergunta ela
Em sua puerilizada inocência
Na inevitável comparação com a "normalidade"
Ela abraça sua mãe
Cujos ombros amparam-lhe as lágrimas

“Não quero ficar só”
E mesmo assim
Ela sorriu
                        Dando-me uma lição...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os jingles politicos: uma "regressão do ouvir"?

Estes dias, durante as “infernais” campanhas eleitorais (especialmente para quem não se elegeu!), pensei em escrever algo sobre os jingles políticos, mas no estado de espírito em que me encontrava, evitei extravasar minha postura etnocêntrica. Haja paciência para aguentar a poluição sonora, fazendo-me lembrar da “regressão da audição” de que falava Theodor Adorno.

O fato é que a democracia é um fenômeno que permite os mais variados tipos de manifestações, inclusive aqueles que classificaríamos de "piadas", como é o caso de alguns notórios. Os jingles, não fogem a regra: quem canta seus males espantam, mas também podem invocá-los. 

Uma das características destes jingles é aproveitar-se de um “hit” popular de verão, criando uma espécie de paródia, cuja lógica é “inculcar” através de uma métrica curta e “pegajosa” o número e nome do candidato. Esta é a lógica da "repetição". Em outras palavras, é perfeitamente possível "piorar" os hits de verão. Dessa vez, estava no topo o hit "ai se eu te pego", como se já antevisse a postura do político que de fato fará isso com a população. A metáfora sensual da música cabe bem ao usual da prática pública.

Além da "perturbação" que elas causam – pelo menos para mim – será que elas têm o poder de influenciar a decisão de um eleitor? Pelo menos assim acredita seus produtores. É o caso de um candidato a vereador, que de modo criativo, disse-me que o jingle é um meio de apelar para “emocional”. De acordo com este candidato, o “povo” brasileiro é muito “auditivo” (eu que o diga!). Mas ele se referia ao fato de que o brasileiro é o um ser “emotivo”, pensa com o "coração" e não com "razão", de modo que apelam para os "ouvidos passionais". Desse modo, para o candidato, o eleitor brasileiro é incapaz de prender-se aos discursos ou as ideias.
Atrai-se pelo "ouvir", como bem faziam as sereias pelos cantos. Não é atoa que a palavra "música" provém das "musas", entidades mitológicas gregas responsáveis pela "inspiração", palavra que por sua vez lembra a ideia de “soprar aos ouvidos”.
Caso os eleitores brasileiros não convençam do contrário, aguardem os próximos hits de verão. Só espero que não volte algo do tipo "rebolation"....