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sábado, 19 de janeiro de 2013

Retrospectiva: a propósito da invenção de um eu pretérito

Toda retrospectiva implica em seleção subjetiva de fatos, isto é, nem todas os fatos objetivos são narrados tal como ocorreram, mas interpretados por meio de outras experiências. Não é possível “reconstituir” objetivamente estas experiências; apenas confessá-las. Trata-se de uma perspectiva marcada por experiências, muitas vezes inconscientes, ou como diria Bourdieu, trata-se de uma “ilusão biográfica”.
 
É o que pretendo fazer nesta "retrospectiva" de meus textos. Trata-se de interpretações posteriores de coisas que nem queria dizer... e assim, “inventei um outro eu”.

O que escrevi até aqui então? Os textos aqui publicados são frutos de diversos momentos de minha trajetória intelectual: ora religiosa, ora cética, ora poética, ora filosófica, ora antropológica ou tudo ao mesmo tempo (sem que me desse conta dos variados níveis discursivos).

De modo geral, os textos podem ser classificados como: ensaios subjetivos, artigos acadêmicos e etnografias, resenhas acadêmicas, poemas e crônicas. Embora tais textos não estejam concatenados entre si – variando em suas diversas temáticas e interesses – pode-se dizer que a experiência que as moldaram foram as mesmas, pois no fundo sempre o devir do mesmo “eu”: extrema inquietude, algumas delas marcadas por uma melancolia com pitadas existenciais. Separar-me (entre o observador neutro e outro afetado) nos propósitos de cada texto só poderia se constituir numa “ilusão”.

O que interessa nesta retrospectiva são os ensaios subjetivos, pois eles marcam os diferentes momentos de minha trajetória, marcadas “variações do ser”, por assim de dizer. Seria mais fácil excluí-los que confessá-los: optei pelo segundo.  

A publicação “solidão teológica” de 2010, por exemplo, é resultado de um desencantamento com a teologia. Afinal de contas, “o que faz um teólogo”, era minha pergunta. As possibilidades de me ver como teólogo estava profundamente desgastada por minhas decepções religiosas. Além disso, me angustiava profundamente o fato de ter que lecionar um conjunto de disciplinas teológicas, das quais já havia o menor sentido para mim.

O texto “ensaio sobre inquietações”, também de 2010, é desse momento, com postura claramente pessimista. Texto aparente desconexo – de propósito – procurava reproduzir estas inquietações, aventurando-se a uma variedade de críticas. Afirmava que não seria possível esperar por “ordem” num texto que versa sobre inquietações. As críticas e a melancolia apareciam em diversos níveis, a ponto de confundir-se nos discursos: mas de propósito (eu acho).

Outro texto com características semelhantes é “devaneios da imaginação” como o próprio nome indica. Inspirado na filosofia poética de Gaston Bachelard, o texto explora algumas imagens, chamadas por este poeta de “imaginação material”. Em oposição à filosofia iluminista que estaria fundamentada da “hegemonia da visão”, chamada por Bachelard de “imaginação formal”, o texto buscava valorizar a imaginação como um meio de produzir saber. O texto considera o devaneio, o sonho, a linguagem poética, o mito, como um modo de estimular o pensamento. Tendo isso como pano de fundo – embora não explicitado ao leitor – o texto começa com um diálogo de um personagem consigo mesmo no espelho. Trata-se do que chamei de “mono-diálogo entre amigos num espelho”. As imagens materiais, como “agua”, “fogo”, “vento”, etc., aparecem claramente na construção desse diálogo e termina universalizando a humanidade num narcisismo experimentado por este indivíduo do solilóquio.

O texto “doce amarga sinfonia da vida” fazia uma crítica aos modernos manuais de auto-ajuda que ao construir uma ideia de “felicidade”, subestimavam a complexidade da vida. E claro, tal crítica tinha uma posição discursiva bem marcada: de um melancólico que buscava “desmascarar” os fingimentos desses manuais do prazer. Tratava-se de um específico momento que eu vivia.

O texto “imitar é preciso” é também uma provocação sociológica. Até que ponto nossos comportamentos não são imitativos? A criatividade não seria um produto posterior da imitação? Enfim...

O artigo “um suposto olhar sobre o imaginário escatológico pentecostal” partiu da observação de um noticiário: um grupo de pessoas teriam abandonado o trabalho e a família acreditando que se isolando do mundo seriam “arrebatadas” para o céu na “vida de Jesus”. Tal notícia gerou uma série de polêmicas, muitas delas acusatórias. Minha questão – um tanto provocativa – era compreender, antropologicamente este imaginário escatológico.

Estranhava-me o fato de que ninguém criticava outras “escatologias” do fim do mundo, como o calendário maia, as profecias de Nostradamus, as cartas de tarô, a numerologia, a astrologia, etc. Ao contrário, havia sempre um esforço por legitimá-las buscando fundamentos científicos e coisas do tipo. Mas, quando se trata do imaginário escatológico desses pentecostais, o tratamento era sempre desprezível, relegados ao nível de “idiotas”. O texto não pretendia defender nem acusar tais “crenças”, mas apenas provocar uma reflexão reversa.

Os textos “assim falou Apókriphos” (parafraseando “assim falou Zaratustra” de Nietzsche), “desespero hermético”, “Eureka: o fim de uma busca?” e “não acredito que já acreditei”, são diálogos atribuídos a um alter-ego chamado “Apókriphos”. Esse personagem, claramente “contraditório”, explora a experiência de um “não-ser”, isto é, de um “não padronizado” em relação ao considerado “canônico”. Ele é sempre um devir, um ser transitório atravessado por angustias, conflitos existenciais: em outras palavras, “inquietações”. Apókriphos “brinca” com o paradoxo, criando um incômodo ao leitor, justamente por não se colocar no papel de um “profeta ou sacerdote que guia consciências”. Trata-se da personificação da contradição, elemento geralmente rejeitado por que busca a “verdade”.

O texto “os jingles políticos: uma regressão do ouvir?” é uma crítica assumidamente etnocêntrica a parafernália criada durante as campanhas eleitorais. Acho que mais “neutro” antropólogo não escaparia desse incômodo aos ouvidos.

O poema “A (menina) cadeirante” foi inspirado num fato específico. Trata-se da observação que fiz de uma visita estudantil (infantil) à sala da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) organizado por uma escola. Enquanto as filas se organizavam para entrada no ônibus, as crianças brincavam (o que implica sempre em “correr”). Entre estas crianças, destacou-se menina cadeirante, que ao contrário das outras estava próximo de sua mãe, que fazia comphania, embora não pretendesse ir ao passeio. Uma série de dificuldades se apresentou: a falta de estrutura adaptável no ônibus, a impossibilidade de uma acompanhante que não fosse a mãe e o isolamento em relação às outras crianças. O poema é inspirado nesse momento.

Já o poema “suspirar”, é de novo uma experiência existencial. Uma profunda melancolia, que inevitavelmente perpassa-me, muito embora quisesse também escrever “coisinhas felizes”.

O poema “pássaro poeta” dá voz á um pássaro, sujas críticas existenciais não precisam mais serem explicadas. O pássaro “sou eu”.

Para concluir, esclareço que esta retrospectiva, ao contrário de ser uma reconstituição objetiva, apresenta-se mais como uma “ilusão” de mim mesmo, uma invenção artística de um “eu” pretérito.

2 comentários:

  1. Parabéns! Uma ecosntituição perfeita, e mais perfeitra ainda é a tentativa de voce captart o espírito que te motivou naquele instante da escrita. Fico feliz Teles por perceber que realmente a reconstituição do pretérito é uma tentativa fracassada de se reencontrar no passado, mas como os caminhos de volta se perderam em nosso mundo presente, se reconfigurando, não conseguimnos mais encontrar aquilo que realmente fomos, e voce nestes textos ensaia se encontrar. Muito bem parabéns!!

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    1. Valeu Alex.. Como diria Rubem Alves: "Sou porque fui".. rrs

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